A história e a beleza do Caminho das Orquídeas

Em evento no Parque Nacional, Marcello com o conquistador Salomyth

Em evento no Parque Nacional, Marcello com o conquistador Salomyth

– Trilha aberta em 1965 facilitou em muito o acesso de montanhas como a Agulha do Diabo

Graças a Salomyth Fernandes, Raimundo Minchetti, Thiers Meirelles e Henry Ochioni, hoje em dia é muito mais fácil chegar a montanhas como a Agulha do Diabo e São João, além do pequeno Mirante do Inferno. Os quatro são responsáveis pela abertura de uma trilha que vai do cume da Pedra São Pedro até a Cota 2000 (no caminho para o Sino) e que encurtou bastante o acesso para tais cumes. Batizada de “Caminho das Orquídeas”, a conquista desse trecho na parte alta do Parque Nacional da Serra dos Órgãos é uma das mais bonitas e importantes da história da unidade de conservação ambiental e, por isso, merece uma coluna especial para contar a saga desses quatro desbravadores – com relato especial de Salomyth.

A imponente Agulha do Diabo, hoje melhor acessada graças a Salomyth

A imponente Agulha do Diabo, hoje melhor acessada graças a Salomyth

Tudo começou com o desbravamento da Agulha do Diabo por Giuseppe Toselli, Almy Ulisséa e outros em junho de 1941, que por três anos lutaram por um caminho que os levasse até a base do Penhasco Fantasma (como era conhecida a montanha antes da conquista). Passaram pelos vales do Santo Antônio e São João, em um trajeto longo e com vários trechos muito íngremes. “Era penoso demais, pois não existia na época materiais adequados à montanha. Entre eles, duas cordas de sisal (de 1/2 polegada) de 30 metros cada, fogareiro com combustível, lanternas de carbureto (usadas pelos mineiros) e alimentação para dois dias. Era dose para leão. E quando chovia, a excursão transformava-se num verdadeiro inferno e frustração no Vale São João. Além de não fazermos a montanha, tínhamos que transportar tudo de volta no dia seguinte, pesando o dobro”, relata Salomyth.
Com tanta dificuldade para chegar à Agulha, os quatro pensaram em uma maneira de chegar até ao local via Pedra São Pedro (próximo e de onde se tem uma vista fantástica para o imponente cume). “Um pouco antes da década de 60 conseguimos eu, Minchetti e Henry Ocioni realizar o nosso objetivo, após a colocação de dois grampos de descida de São Pedro para o mirante, daí para a Agulha e voltar pelo mesmo caminho. Foi o maior conforto, além de não carregarmos barracas (porque existia o abrigo 4) não sofreríamos tanto, porque se chovesse, existia a alternativa de não frustrar a excursão, pois tínhamos a Pedra do Sino ou o São Pedro”.

No Centro Excursionista Light, no Rio de Janeiro, Salomyth fez pintura do caminho

No Centro Excursionista Light, no Rio de Janeiro, Salomyth fez pintura do caminho

Esse foi o primeiro trecho da nova trilha, por enquanto sem nome. Porém, o caminho ainda era longo pelo fato de ter que se ir até o Sino e descer. Então, nova ideia: Chegar do Mirante do Inferno até a Cota 2000, relativamente próximo do abrigo três. E foi nesse trajeto que os conquistadores tiveram mais dificuldade e também se depararam com uma cena que serviu para batizar a passagem.
“De repente, no ardor da luta desenfreada para desbravar o local contra um taquaral infernal (fechado mesmo!), que foi vencido com foice e facões de mato, durante quase três horas, para depararmos numa clareira com árvores copadas perto de uma pedra de bom tamanho, coberta de musgo (batizada como Pedra do Tapete) da qual pendia uma imensidade de orquídeas. Paramos e sentamos para reverenciar em silêncio aquela inigualável maravilha, tanta beleza que nos fez sentir uns invasores miseráveis daquele santuário divino. Beija-flores que saltitavam, zuniam com suas asas vibrantes no afã de se alimentar do néctar das flores. Bem que a natureza lutou para preservar este santuário, com aquele emaranhado de taquarais, que foi vencido, e mais tarde, infelizmente, destruído pelos vândalos caçadores de orquídeas, quando souberam pelo noticiário”, conta, sempre emocionado, o Salomyth. “A princípio, pensávamos em batizar com o nome de Caminho Rondon, em homenagem ao grande brasileiro Marechal Rondon, o último bandeirante que desbravou o oeste do Brasil, demarcando a fronteira do Brasil com a Bolívia. Entretanto, devido ao fato citado acima, achamos mais poético e lindo o nome de Caminho das Orquídeas”.

Vistos da importante trilha, Cruz, Queixo, Nariz e Verruga do Frade

Vistos da importante trilha, Cruz, Queixo, Nariz e Verruga do Frade

Também nesse trajeto, abriram o local hoje conhecido como Abrigo Paquequer, ao lado de uma das nascentes do rio que corta toda Teresópolis. Este caminho tornou-se o mais viável e o mais usado pelos montanhistas para quem quer escalar a Agulha do Diabo. Além do mais, pode-se ir ao São João ou São Pedro (pelo paredão ou Chaminé Cassin), ou então pode-se fazer também um circuito completo: Pedra do Sino, São Pedro, São João, cota 2.000, Pedra da Cruz, Caminho da Neblina, Queixo do Frade, Nariz do Frade e descendo para o antigo abrigo 2, caminho normal para a sede do P.N.S.O.
“Enfim, sinto-me feliz por ter aberto essa trilha, porque nós contribuímos para que todos os montanhistas tivessem um melhor acesso à Agulha do Diabo – a montanha do meu coração – onde tive alegrias e emoções das 37 vezes que eu a escalei e, as noites inesquecíveis que passei no seu platô. Guardarei este sonho realizado dentro do fundo do meu coração para sempre”, finaliza o velho montanhista.

 

Abrigos antigos
Ainda segundo relato publicado no boletim 557 do Centro Excursionista Rio de Janeiro – CERJ, Salomyth fala de outro assunto bastante interessante relacionado ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos: Os antigos abrigos ao longo da trilha da Pedra do Sino. “Na década de 60 houve a destruição do antigo abrigo 4 por culpa do administrador do P.N.S.O., relapso filho da ditadura militar que se instalou no nosso país por 20 anos, este senhor fazia de tudo para impedir o acesso dos montanhistas às montanhas. Ainda na década de 60, a dificuldade continuou com a presença deste nefasto administrador, que além de destruir o abrigo 4, destruiu os abrigos 1 e 2, querendo também destruir o abrigo 3, quando houve o protesto e levante de todos os montanhistas que impediram que fosse destruído (infelizmente por pouco tempo)”.
No final de 2005, Fernandes esteve na sede do Parque para ser homenageado pelos 40 anos da conquista, quando representou os outros desbravadores e emocionou quem estava na plateia. “O Salomyth tem uma importância muito grande para o esporte. E vê-lo chorando ao contar o momento em que encontraram as orquídeas é uma coisa para não esquecer nunca mais”, atenta Alexandre Formiga, do Centro Excursionista Teresopolitano.

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Jornalista, Editor do jornal O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS, Marcello Medeiros atua na imprensa teresopolitana desde 1995. Atualmente, também assina a coluna “Mochileiro”, no próprio jornal, e apresenta programa homônimo na DIÁRIO TV.

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