O montanhismo como estilo de vida

 

Parado no ar, a lua ao fundo... Momentos únicos desfrutados por poucos

Parado no ar, a lua ao fundo… Momentos únicos desfrutados por poucos

– Porque subir uma montanha, escalando ou caminhando, pode contribuir tanto para seu dia a dia

“Você alguma vez se divertiu escalando uma montanha? É difícil. Você transpira, a respiração fica difícil, você fica cansado. E, então, você chega ao pico ensolarado e depois se deita… E que relaxamento, e que alegria brota no seu ser! O silêncio do pico e a árdua escalada, e você chegou: e a alegria de chegar! Você poderia ter sido deixado ali por um helicóptero, mas, nesse caso, não haveria nenhuma alegria. Teria sido confortável. Edmund Hillary poderia ter chegado ao pico do Everest de helicóptero, teria sido mais fácil, mas ele tentou de modo difícil. E escreveu: ´Eu jamais havia conhecido tamanha bem-aventurança. Quando cheguei ao pico, eu estava sozinho, o primeiro homem no Everest’. Ninguém tinha visto o céu daquele ponto, ninguém tinha visto o mundo daquele ponto. Foi puro êxtase. Ele dançou”. Esse trecho de “O Baralho da Descoberta de Buda”, de Osho, Ed. Cultrix, ilustra perfeitamente o que quero escrever, sobre quanto bem um esporte como o montanhismo pode fazer para o homem. E nunca é demais falar sobre esse assunto, sendo morador de uma cidade cercada de montanhas por todos os lados. Protegida pela Serra dos Órgãos, pelo Parque Estadual dos Três Picos e Parque Natural Municipal Montanhas de Teersópolis. Cercada de verde, privilegiada pela natureza.

Infelizmente, não é difícil constatar que uma minoria de teresopolitanos percebe tudo isso. Uma minoria para na Avenida Lúcio Meira e olha para a sensacional cadeia de montanhas que serve de cenário de fundo para uma cidade que cresce a cada dia, cada vez mais se esquecendo do que tem de melhor. E basta chegar uma vez a qualquer um desses cumes e ter a visão do outro lado, de cima, para perceber o quanto Teresópolis é pequena diante do que temos à nossa volta e como poderia ser muito mais bonita, um lugar muito melhor para se viver, se a urbanização não tivesse chegado ao ponto que estamos hoje. Ou pelo menos deveria ser assim. Mas, citando mais uma vez o “infelizmente”, nem todos que tem o privilégio de subir uma montanha a compreendem, a preservam.

“Mais cedo ou mais tarde, os ônibus estarão indo lá e os hotéis estarão lá e os cinemas, e aquilo vai ficar muito confortável. Mas não espere sentir o mesmo êxtase que Edmund Hillary, embora você esteja ali, de pé, no mesmo lugar. Você parecerá um pouco bobo e estúpido, eis tudo. E você não entenderá por que Edmund Hillary dançou; não verá nenhum motivo para tanto. Por toda a volta, haverá hotéis e centros de informação para turistas e guias e tudo estará ali, disponível – o mundo todo estará ali. Você não verá o porquê de ele ter gargalhado, de ter se divertido, de ter dançado, porque você não sentirá nenhuma dança”, cito mais uma vez o texto que relata a escalada na montanha mais alta do mundo.

Mas não é preciso ir até o Everest para entender esse esporte. A Agulha do Diabo, na Serra dos Órgãos, é um grande desafio. Sua escalada é mais do que um esporte radical. Só quem realmente esteve naquele pequeno cume sabe do que estou falando. A caminhada longa, a trilha íngreme, as fendas úmidas. O cavalinho, lance que já fez muita gente desistir da subida. O final da “unha” e o cabo de aço que podem fazer tremer até aqueles que acham que não tem medo de altura…

“A vida é alegria somente quando você a vive sem artifícios, quando você a vive em todo o seu estado selvagem, quando você a vive naturalmente, espontaneamente. Sim, fatalmente haverá dificuldades, fatalmente haverá perigos, mas eles fazem parte da vida e, sem eles a vida não será vida absolutamente. E esse é o único modo de dominar a si mesmo”, cabe bem aqui outro trecho do mesmo texto acima relacionado.

E falando de escalada, onde as dificuldades são muito maiores quando se pretende chegar ao cume de uma montanha, ainda temos outro exemplo que podemos utilizar no nosso dia a dia. “Dividir a ponta da corda com alguém é uma relação, antes de tudo, de confiança. Vidas estão ali, unidas por aquele cordão de não mais que UM CENTÍMETRO de espessura. Há que se confiar! Já disse várias vezes, e repito: Tenho por princípio só escalar com amigos… E não é qualquer coisa não: É amizade forjada pela adrenalina ímpar liberada durante uma escalada e selada pela mistura de suor e pó de magnésio derramados por onde já tive o prazer de passar, sempre com o sangue correndo quente nas veias e o coração batendo com força, alto e acelerado, ralando as pontas dos dedos e gastando um pouco da borracha de minhas botas ou sapatilhas para – junto com meus amigos, de alguma forma dar uma leve espiada naquele lado ‘proibido’ que poucos tem o privilégio de contemplar”. O texto é de um grande amigo, Alexandre Formiga, escrito quando ele comemorou 20 anos nas montanhas e que descreve bem o companheirismo que praticamos nesse esporte.

E no mesmo artigo, que inclusive mereceu publicação aqui neste espaço, ele foi além. “Já estive em muitos cumes. Muito menos do que gostaria, com certeza. Mas muito mais talvez do que me permite minha parca capacidade. E me considero um privilegiado por isso. O prazer que sinto ao atingir o cume de uma grande montanha é um sentimento que ainda não consegui traduzir em palavras. Costumo dizer que olhar o mundo de cima nos dá a exata dimensão do quanto somos pequenos e medíocres diante da Criação. É um prêmio que está reservado aos que têm a coragem de ousar desafiar seus limites em busca de tal contemplação ímpar”.

E não sei se consegui traduzir em palavras o que sinto ao chegar ao cume de uma montanha. O prazer que tenho de terminar uma escalada de sete horas ou uma caminhada de 30 minutos ao lado dos meus amigos. De como somos iguais quando estamos nas trilhas ou paredes. Não há repórteres, contabilistas, militares… Somos mais. Vivemos na essência.

Por isso, sempre repito: Conheça, preserve, aproveite da melhor forma uma das coisas que nossa cidade melhor pode oferecer. E, caso você venha a se tornar mais um apaixonado por esse que é mais do que um esporte, nada melhor do que citar o alpinista italiano Reinhold Messner, o primeiro, junto com Peter Habeler, a escalar o teto do mundo sem garrafas de oxigênio em 1978, e o primeiro a escalar o Everest em solitário em 1980. Ele também foi o primeiro a conseguir escalar todas as quatorze montanhas com mais de 8000 metros do mundo e o segundo a escalar os sete cumes mais altos dos sete continentes. “Os dias que esses homens passam na montanha são os dias que realmente vivem. Quando as cabeças se livram das teias de aranha e o sangue corre com força nas veias. Quando os cinco sentidos cobram vitalidade e o homem completo se torna sensível e então já pode ouvir a voz da natureza e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados”.

 

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Jornalista, Editor do jornal O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS, Marcello Medeiros atua na imprensa teresopolitana desde 1995. Atualmente, também assina a coluna “Mochileiro”, no próprio jornal, e apresenta programa homônimo na DIÁRIO TV.

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