Pedra do Camelo, um cume e diferentes sensações

Registros de 2008 e do último sábado mostram a grande mudança no bairro da Posse, próximo ao antigo motel Toca do Coelho, que aparece na primeira imagem. Também no primeiro registro, sequer se avista o Rio Príncipe

Registros de 2008 e do último sábado mostram a grande mudança no bairro da Posse, próximo ao antigo motel Toca do Coelho, que aparece na primeira imagem. Também no primeiro registro, sequer se avista o Rio Príncipe

– Montanha permite excelente vista para o lado bonito de Teresópolis, mas também ângulos preocupantes

Com elevação máxima de 1.400 metros de altitude em relação ao nível do mar, a Pedra do Camelo é mais uma bonita opção de caminhada na área do Parque Natural Municipal Montanhas de Teresópolis. Fica bem perto da formação rochosa símbolo dessa unidade de conservação ambiental e sua trilha é relativamente curta, de cerca de dois quilômetros. O acesso é bem fácil até as proximidades do cume, onde é necessário “ousar um pouco mais” para chegar ao ponto mais alto da montanha. E, de lá, é possível admirar ângulos maravilhosos e únicos de toda nossa região e os outros dois parques, Serra dos Órgãos e Três Picos. Mas, lá do alto, também há motivo para se preocupar: É claramente perceptível o crescimento de comunidades e fica fácil entender a dimensão da Tragédia de 2011 e os problemas que se arrastam desde então por conta incompetência e inoperância do poder público.

A Pedra do Camelo tem 1.400m de altitude e fica na área do Parque Natural Municipal Montanhas de Teresópolis, bem perto da Tartaruga

A Pedra do Camelo tem 1.400m de altitude e fica na área do Parque Natural Municipal Montanhas de Teresópolis, bem perto da Tartaruga

Frequento o Camelo desde meus tempos embrionários no montanhismo, sendo o terceiro cume que tive a felicidade de pisar, lá no final dos anos 90. Na ocasião, o dilema era atravessar uma área de extração de pedras, um crime irreparável ao meio ambiente, para chegar ao bonito topo. Em 2009, mais precisamente na data do aniversário de Teresópolis, toda aquela região passou a fazer parte do PNMMT.  Quase sete anos depois da criação do parque, felizmente não há mais sinais da retirada de pedras, mas ainda há motivos para ficar preocupado.

Mas vamos ao passeio. Estive no Camelo no último sábado, acompanhado dos amigos de Centro Excursionista Teresopolitano Leandro Nobre, Léo Costa e Susana Medeiros. Um bonito e gelado dia azul, tão frio nas primeiras horas da manhã que acabou assustando alguns companheiros que participariam da empreitada conosco… Montanhista com medo de frio? Vai entender…

Uma das opções de acesso ao cume, um trepa-pedra "meio chaminé", onde é necessária uma corda para dar mais segurança e confiança

Uma das opções de acesso ao cume, um trepa-pedra “meio chaminé”, onde é necessária uma corda para dar mais segurança e confiança

O acesso para essa montanha é o mesmo da Tartaruga, onde há uma guarita do Parque Municipal, no Salaco. Na portaria, encontramos um grande grupo de fora da cidade se preparando para um dia de rapel no quelônio de pedra – já um ponto positivo, visto que até antes da criação da unidade de conservação era bem reduzido o número de turistas interessados na beleza da região.

A antiga fechada e escorregadia passagem está aberta e sinalizada, seguindo sempre pela esquerda para a trilha do Camelo. Após uma área de lazer, a entrada para o caminho, também bastante diferente do que encontrei anos atrás. Uma passagem larga, com água e até um banquinho para admirar a vista. E ela, a paisagem, continua tão linda quanto na época que eu engatinhava nesse esporte. Aliás, corrigindo, está mais bonita. Olhando para a direita, não avistamos mais as marcas criminosas das pedreiras e apenas o bucólico vale do Córrego dos Príncipes.

 

Quase no cume, uma grande rocha se projeta para o abismo. A formação lembra a "cabeça" da Tartaruga, que fica perto dali

Quase no cume, uma grande rocha se projeta para o abismo. A formação lembra a “cabeça” da Tartaruga, que fica perto dali

Atenção na parte final

Caminhando, cantando e seguindo a canção… Já diz a música. E assim, seguimos pela aberta crista, descontraídos, até bem perto do topo. Quando se chega de frente para grandes blocos de pedra, é preciso definir qual caminho tomar. São três opções: Um trepa-pedra, meio chaminé, onde é necessário a utilização de uma corda para segurança para os menos experientes, bem na parte da frente, um caminho pela esquerda que não tem sido recomendado por estar com pontos de erosão e muita umidade, e consequentemente escorregadio, ou um trepa mato seguindo direto pela direita. Este último era o caminho “original” na época que comecei a frequentar, mas acabou abandonado com a abertura da rota pela esquerda e hoje está bem duro de enfrentar, mas ainda é melhor opção do que a “meia-chaminé”, visto que o caminho mais fácil, pela esquerda, deve ser evitado até reparação dos pontos de erosão.

A 1.400 metros de altitude, hora de sentar, descansar e contemplar. Bem à nossa frente, as principais montanhas do Parque Estadual dos Três Picos, as que dão nome a unidade de conservação. À direita, Teresópolis e as altitudes da Serra dos Órgãos, desde o Nariz/Verruga do Frade até a Pedra do Sino, ponto mais alto da cadeia com 2.255m de altitude. Para o lado esquerdo, a região de Santa Rita, onde ficam a sede do PNMMT e muitas outras opções de turismo ecológico. Em um dia bonito como foi o último sábado, fica difícil escolher para onde se olhar…

 

Bem de frente, os Três Picos em uma extremidade e a Mulher de Pedra na outra, além de dezenas de montanhas dessa unidade de conservação

Bem de frente, os Três Picos em uma extremidade e a Mulher de Pedra na outra, além de dezenas de montanhas dessa unidade de conservação

A mão pesada do homem

Como citei no início, é muito bom não ouvir mais os barulhos de talhadeira ou os caminhões acelerando Córrego dos Príncipes acima para a retirada das pedras cortadas simetricamente dos blocos entre Camelo e Tartaruga. Porém, ainda não dá para voltar completamente feliz de lá. Do alto, se percebe o crescimento da comunidade do Arrieiro, entre Posse e Santa Rita, e bem no meio da área do Montanhas de Teresópolis.  A “ilha de casas” na floresta é maior a cada ano, promovida pela precária fiscalização e provavelmente necessidade habitacional – ainda assim não justificável – gerada aos moradores daquela região após a catástrofe de cinco anos e meio atrás. A diferença entre uma ilha de verdade e essa que avistamos de lá é que o “mar verde” à sua volta não ter a força de um oceano para se proteger.

É necessária fiscalização e acompanhamento constante para evitar novas ocupações, desmatamentos e danos à área verde. É preciso controlar para não ser necessário enterrar ou indenizar mais vítimas de tragédias naturais que “tiveram a permissão” para construir suas vidas em áreas de risco por conta da omissão de quem deveria estar cuidando disso… E quanto ao dano ambiental, é sempre importante frisar que o que é perdido nunca mais será recuperado. Não há compensação ambiental suficiente para um dano permanente.

Ainda do cume do Camelo, avistamos os bairros devastados pela enxurrada de 12 de janeiro ao longo do rio Príncipe e, comparando com imagens antigas, gravadas nos nossos hd’s ou memórias, se percebe como mudou e o quanto ainda precisa ser feito, em vários sentidos.

 

O Teresopolitano

Para saber mais sobre essa e outras caminhadas e escaladas na nossa região, visite uma das reuniões sociais do Centro Excursionista Teresopolitano, o CET. O principal clube de montanhismo do município, e único filiado à Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro (Femerj), funciona na loja do Pró-Lactário, número 555 da Avenida Lúcio Meira, ao lado da ponte. As reuniões sociais acontecem todas as quartas-feiras, a partir das 20h.

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Jornalista, Editor do jornal O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS, Marcello Medeiros atua na imprensa teresopolitana desde 1995. Atualmente, também assina a coluna “Mochileiro”, no próprio jornal, e apresenta programa homônimo na DIÁRIO TV.

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