Um passeio pelas belezas e problemas da Guanabara

Peixe, Dedo de Deus, Dedo de Nossa Senhora e Escalavrado: Nossa serra  vista bem de longe, do lado norte da Baía de Guanabara

– Navegação a partir do Rio Magé é uma experiência de “vida e morte” de um dos locais mais bonitos do estado

Uma das metas do governo estadual para as Olímpiadas de 2016 é despoluir 80% das águas da Baía de Guanabara, visto que algumas competições acontecerão no local. Porém, o objetivo está longe de ser cumprido. Basta olhar com um pouco mais de carinho para ela, que recebe a água de cerca de 50 rios e, também, muito lixo e material sedimentoso que vem causando a sua poluição e assoreamento. No último fim de semana, participei de um passeio saindo de Magé e atravessando a Baía até a Ilha de Paquetá, constatando que, apesar de tantas belezas e a força da própria natureza em se manter de pé, as agressões ambientais são muitas.
Fui convidado a fazer parte da visita técnica pelos amigos Bruno Bittencourt e Karine de Moraes, do curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Serra dos Órgãos, que organizaram a empreitada que seria guiada pelo Engenheiro Agrônomo José Luiz Natal Chaves, que também é professor de Gestão Ambiental do Unifeso. Além de nós, participaram Francisco Melo Junior e sua namorada Bianca, o estudante de medicina Diego Filho e o também Engenheiro Agrônomo Marcio Mendes. Nosso barco saiu do canal Magé, um dos muitos daquele município que deságua na Baía de Guanabara.
Aliás, já no começo da aventura vivemos o primeiro problema gerado pela degradação ambiental no local: Chegamos às 6h em Magé, mas a maré já havia começado a baixar e não era possível a saída do barco porque o canal está totalmente assoreado e ficaríamos presos antes mesmo de chegar à Baía. “Precisa de dragagem, urgente… Não tem mais como viver assim, estamos sofrendo muito para chegar ou para sair do mar. Antes dava muito camarão, muita tainha, muito robalo… E hoje não tem quase mais nada porque está assoreada e em lugar que havia um metro d´água, hoje não tem um palmo”, nos relatou o pescador Antonio Damasceno, o Tuninho, de 64 anos, que há mais de 50 anos trabalha naquela região.
Sem a possibilidade de navegação, tivemos que retornar somente às 12h, quando a maré começou a subir novamente. Ainda assim, esperamos mais uma hora até que houvesse condições de o antigo barco sair. Mas, logo nos primeiros metros após o local da partida, já percebemos que a viagem valeria a pena. Atravessamos o manguezal, admirando as curiosas árvores adaptadas para sobreviverem nesse ecossistema, com suas raízes aéreas, que se aprofundam na lama até conseguirem se firmar para suportar a entrada das marés altas e enxurradas dos rios. Trata-se da Rhizophora mangle, popularmente conhecida como mangue-bravo ou vermelho. O manguezal se desenvolve nos estuários e foz dos rios e é considerado um berçário de muitas espécies animais, como crustáceos, peixes e moluscos. Nesse trecho, porém, em contraste com a beleza das árvores e aves como garças e biguás, já avistamos muito lixo flutuando e claramente se percebe a poluição da água, com a presença de óleo.
Na saída para a Baía de Guanabara, bambus enfincados na água, com grandes pedaços de plástico na ponta, servem de orientação para os pescadores e alerta para outro grave problema, o assoreamento. Eles pontuam os locais que podem passar sem ter seus motores ou as próprias embarcações danificadas no material sedimentoso que se acumula no local. O assoreamento é um processo natural comum, porém bastante ampliado devido à ação antrópica nos rios de toda a região. Com a exclusão da cobertura vegetal, seja de grandes árvores da Mata Atlântica ou da mata ciliar, a vegetação que fica nas margens dos cursos d´água, o solo fica desprotegido, é arrastado e depositado nos fundos dos rios e, consequentemente, vai parar na Baía. Com esse aumento do processo deposicional, percebe-se o avanço do manguezal em diversos pontos.
Driblando as adversidades ampliadas drasticamente pela mão pesada do homem, navegamos por cada de 1h30 até a Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. Ficamos por lá apenas por cerca de meia hora, com o objetivo seguir viagem em direção a outros locais interessantes, com os rios Suruí e Suruí mirim, em Magé. Ao longo de todo esse percurso, tanto na ida quanto na volta, cruzamos diversos “currais de pesca”, montados com bambus com o objetivo de “prender os peixes”, que posteriormente são capturados com rede.

Começo do passeio, cortando o canal Magé. Depois de horas esperando a maré subir, saímos em direção a Baía

Começo do passeio, cortando o canal Magé. Depois de horas esperando a maré subir, saímos em direção a Baía

Um grande dia na Baía
A Baía de Guanabara é cercada pelas cidades do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, São Gonçalo, Niterói, Magé e outros municípios menores. Olhando para o norte, avistamos a nossa fantástica Serra dos Órgãos, em um ângulo bem incomum do Dedo de Deus. Devido suas proporções, uma tarde é pouco para navegar e ver tanta coisa. Mas, mesmo assim, valeu o passeio, o primeiro de muitos que pretendo fazer naquela região.
Nos depoimentos colhidos com alguns integrantes do grupo para o programa Mochileiro da Diário TV (Canal 4 do Sistema RCA News), que vai ao ar em breve, dá para ter uma do sentimento daqueles que buscam conhecer um pouco mais sobre nossas belezas e problemas que as comprometem.
“Esse tipo de oportunidade que nós temos, de fazer visitas técnicas como a que fizemos, é interessante porque podemos ver exatamente a situação real que as coisas se encontram. Se por lado tem uma Baía degradada, vemos claramente a força da natureza de tentar recuperar essa degradação. É um passeio extremamente proveitoso e, além disso, a companhia fez com que o evento se tornasse muito mais agradável. Por isso, espero poder participar de outros eventos como esse, que reforçam a relação entre as pessoas e mostram a grande necessidade de se reagir a situações como vemos na Baía de Guanabara”, relatou nosso guia, José Luiz.
“Gostei muito. Sou de fora, sou de Goiás, e é uma realidade muito diferente. Agora, andei mais de 1200 quilômetros para vir para cá e tem gente daqui que não conhecesse essa beleza e esse processo de falta de cuidado com a natureza. Então, acho que todos deveriam ter essa oportunidade de entrar pelo manguezal e curtir a Baía”, completou o estudante de medicina Diego Filho.
“Realmente é uma emoção, uma aventura totalmente diferente do que estamos acostumado. É muito bonito, ver inclusive nossa serra de outros ângulos, coisas que não se vê de lá, e também esse impacto muito grande. Vemos de perto que temos que mudar muita coisa, esperando que essa vivência, essa experiência ajude as pessoas tentar mudar isso”, lembra o contador Francisco Mello Jr.

Um dos canais do rio Magé, de onde partimos. Nessa hora, maré começava a descer novamente

Um dos canais do rio Magé, de onde partimos. Nessa hora, maré começava a descer novamente

História
A Baía de Guanabara foi descoberta em janeiro de 1502, pelo explorador português Gaspar de Lemos, quem a nomeou Rio de Janeiro, acreditando efetivamente que era um rio. Os indígenas, entretanto, denominavam-na, em tupi-guarani, como iguaá-Mbará (iguaá=enseada do rio, e mbará=mar ) e de Guanabara ( “seio de onde brota o mar” ) pelos Tamoios. Ela é a resultante de uma depressão tectônica formada no Cenozoico entre o bloco da Serra dos Órgãos e diversos maciços costeiros menores. Constitui a segunda maior baía, em extensão, do litoral brasileiro, com uma área de aproximadamente 380km2.

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Jornalista, Editor do jornal O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS, Marcello Medeiros atua na imprensa teresopolitana desde 1995. Atualmente, também assina a coluna “Mochileiro”, no próprio jornal, e apresenta programa homônimo na DIÁRIO TV.

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