Há cenas pequenas que dizem mais sobre o poder do que os tratados de ciência política. Episódios aparentemente banais que condensam e exemplificam o modo como o Estado autoritário se relaciona com o cidadão.
Encontrei uma dessas cenas no livro “Gostei do Século”, escrito por Márcio Moreira Alves, jornalista, ex-deputado federal pela Guanabara, falecido em 2009 e causa alegada pelos generais para o AI-5.
Márcio narra uma passagem da visita que fez a Portugal, logo após o sucesso da Revolução dos Cravos, que, com a participação das Forças Armadas, deu por encerrada a longa e cruel ditadura de Salazar.
Em um dos muros da cidade de Elvas, na região do Alto-Alentejo – conta Márcio Moreira Alves – estava escrito, entre palavras de ordem solenes — “Vivam as Forças Armadas” — a frase: “Fontainha não comerá mais bananas grátis.”
Intrigado, Márcio perguntou a um feirante o significado daquilo. A resposta seca, direta e devastadora: “Fontainha era agente da PIDE, a polícia política do regime salazarista. Ele circulava pela feira comendo bananas — produto caro — e simplesmente não pagava. Com a queda do regime, Fontainha perdeu o poder. E, avisamos: “agora ele terá que pagar pelas bananas”.
Essa pequena história é um retrato cruel e preciso da truculência cotidiana do Estado quando ele deixa de se submeter à lei e passa a se confundir com a força bruta.
Quando se fala em corrupção, o imaginário coletivo costuma correr para grandes esquemas: cifras milionárias, contratos públicos, offshores, delações premiadas. Mas há uma corrupção silenciosa e, paradoxalmente, mais pedagógica: a corrupção do gesto cotidiano, praticada por agentes que usam o poder para humilhar, extorquir e se impor.
O fiscal Fontainha não precisava desviar recursos públicos para mostrar o poder que detinha outorgado pelo Presidente da República que, certamente, nem sabia que ele existia.
Esse tipo de corrupção raramente aparece nos balanços do Estado ou nas estatísticas oficiais. Mas está entranhada na vida social e nos avisa todos os dias, que num ambiente autoritário, a lei não vale para todos — e que quem carrega o poder pode tudo, até comer bananas na feira sem pagar.


