Os livros são meus companheiros para todas as horas — sobretudo para as tensas e ociosas. Muitos dos que tenho, eu comprei, outros ganhei e entre os que me foram dados está “Templo sem Deuses”, presente de um amigo no meu aniversário de 2001.
O autor, Gregório da Fonseca, gaúcho de Cachoeira do Sul, imortal da Cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras, foi Secretário de Governo de Vargas. “Templo sem Deuses”, veio ao público em 1907. Refere-se ao parlamento brasileiro da Primeira República.
Para Gregório da Fonseca, o templo perde seus deuses quando a política deixa de representar um projeto coletivo e se reduz à administração de interesses imediatos. Ele fala de um Parlamento que permanecia de pé em sua forma, mas esvaziado em sua substância. O edifício institucional resistia; o sentido político, não.
O templo estava lá — majestoso, formal, respeitável —, mas os deuses haviam partido. Restaram os ritos, os discursos, as sessões, os regimentos e uma liturgia que já não produzia direção, confiança, liderança ou esperança coletiva.
Quase um século depois, deputados federais e senadores confirmam a intuição do autor de Templo sem Deuses: neste século, o templo não caiu — mas está vazio.
O Congresso Nacional do presente transforma a governabilidade em mera negociação orçamentária; substitui programas por emendas, visão estratégica por tática eleitoral e confunde representação nacional com a simples soma de bases locais.
“Recordar e prever,constituem dons peregrinos da inteligência. Recordar é privilégio do homem; prever, quase atributo da divindade” disse Gregório da Fonseca na abertura do discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.
Se vivo hoje, certamente, Gregório da Fonseca não precisaria recordar o que foi o Parlamento no seu tempo, pois o de hoje é também um Templo sem deuses. Ou seja, com ditadura ou democracia, o templo continua vazio.
Por fim, ninguém precisa ter o atributo da divindade para prever que os deuses permanecem fora do “templo”, porque o povo brasileiro não compreende que cabe a ele e somente a ele convocá-los.
Por falar nisso, teremos eleições em outubro com a possibilidade de trocar todos os deputados e dois terços dos senadores.


