Maria Eduarda Maia
A relação entre a saúde da boca e o funcionamento do organismo vai muito além do que geralmente se percebe. Muito além da estética ou do desconforto local, problemas e doenças bucais podem afetar diretamente a saúde do organismo. Cáries, gengivite e infecções na boca, por exemplo, podem aumentar o risco de doenças graves como AVC e infarto. Em entrevista ao Diário, a cirurgiã-dentista Gizeli Brock, da Oral Unic Teresópolis, explicou como a saúde bucal interfere no funcionamento do corpo e alertou para sinais que muitas vezes passam despercebidos pela população. Segundo a especialista, a saúde da boca influencia até funções que muitas pessoas não associam aos dentes, como a alimentação e até o emagrecimento. “Nosso organismo funciona como uma engrenagem. Se uma peça não está funcionando bem, isso acaba afetando o restante do corpo. Uma pessoa que sente dor ao mastigar, por exemplo, acaba engolindo os alimentos mais inteiros e não envia ao cérebro a sensação correta de saciedade. Isso pode fazer com que ela coma mais”, explica.
Ela destaca que a boca faz parte do organismo e precisa ser cuidada da mesma forma que qualquer outro órgão. “Não ter cáries e manter uma saúde gengival adequada é essencial para que os outros órgãos funcionem corretamente”, afirma.

Saúde bucal e risco de AVC
Estudos recentes reforçam essa ligação entre a saúde bucal e doenças cardiovasculares. Uma pesquisa publicada na revista científica Neurology Open Access, da Academia Americana de Neurologia, revelou que pessoas com doenças gengivais possuem até 86% mais chances de sofrer um AVC isquêmico em comparação com indivíduos que mantêm uma boa saúde bucal. O estudo acompanhou quase seis mil adultos ao longo de 20 anos e identificou aumento significativo dos casos de AVC conforme pioravam as condições bucais.
Segundo a dentista, inflamações na gengiva e dentes infeccionados podem permitir que bactérias cheguem à corrente sanguínea. “A saúde bucal não é a única causa do AVC, mas ela é um fator de risco associado a outros problemas, como pressão alta, diabetes e tabagismo. Quando esses fatores se juntam, o risco aumenta muito”, explica.

Especialistas apontam que essas bactérias provocam inflamações crônicas no organismo, favorecendo o acúmulo de gordura nas artérias, processo conhecido como aterosclerose, que pode levar à obstrução dos vasos sanguíneos. Além do AVC, o risco de infarto também aumenta quando problemas bucais são negligenciados.

Feridas que não cicatrizam merecem atenção
Durante o Maio Vermelho, campanha de conscientização sobre o câncer bucal, o alerta também se volta para sinais aparentemente simples. Segundo a especialista, até mesmo um dente quebrado pode desencadear um problema mais grave. “Esse dente pode causar um atrito constante na gengiva, criando uma ferida que não cicatriza e que pode evoluir para um câncer bucal”, alerta Gizeli. Ela explica que o câncer de boca costuma ser silencioso e, por isso, perigoso. “Muitas vezes, o paciente só procura ajuda quando percebe que algo não melhora.”
Segundo a cirurgiã-dentista, Gizeli Brock, entre os principais sinais de atenção estão: feridas que demoram mais de 15 dias para cicatrizar; manchas nos lábios ou dentro da boca; aftas persistentes; sangramentos frequentes na gengiva; dentes amolecendo sem motivo aparente. “Muitas pessoas tentam resolver isso em casa com pomadas, mas o correto é procurar um profissional para investigar”, orienta.
Cuidados simples fazem diferença
A prevenção continua sendo a principal forma de evitar complicações. A recomendação é realizar a escovação pelo menos três vezes ao dia, usar fio dental diariamente e manter acompanhamento odontológico regular. “Muita gente não sabe que apenas a escova limpa cerca de 60% dos dentes. Os outros 40% precisam ser limpos com o fio dental”, destaca. Ela também reforça a importância das consultas preventivas. “Muita gente pergunta por que deve ir ao dentista a cada seis meses mesmo sem sentir nada. A resposta é simples: nesse período conseguimos identificar qualquer problema ainda no início.”

Segundo a especialista, quanto mais cedo ocorre o diagnóstico, mais simples tende a ser o tratamento. “Uma cárie pequena pode ser resolvida apenas com restauração. Um início de gengivite ainda não virou periodontite. Mas quando o paciente demora anos para procurar ajuda, o tratamento se torna muito mais complexo.”

Maio Vermelho reforça prevenção
A campanha Maio Vermelho busca conscientizar a população sobre os riscos do câncer bucal e a importância do diagnóstico precoce. “O câncer bucal é uma doença grave e com tratamento difícil e invasivo. O cigarro, por exemplo, é extremamente agressivo para a saúde da boca”, afirma a dentista.
Gizeli reforça que qualquer dentista está apto a identificar sinais suspeitos. “Muitas vezes o câncer começa apenas como uma pequena mancha, sem dor ou coceira. O paciente acha que é algo simples, mas pode não ser. Por isso, manter a saúde bucal em dia e visitar regularmente o dentista é tão importante.”






