Isla Gomes
Quem passa pela Carmela Dutra, em Teresópolis, dificilmente resiste à tentação. Um bonito pé de amora, logo na entrada da via, perto do encontro com a Tenente Luiz Meirelles, chama atenção pela quantidade de frutos e muita gente aproveita para parar, colher e experimentar. A cena desperta memórias de infância e também levanta uma dúvida: afinal, pode comer fruta direto do pé? Para Fernando Peixoto de Souza, zelador de um edifício em frente aos pés de amora, ver as pessoas aproveitando as amoras é motivo de orgulho. Ele ajudou a plantar as árvores e cresceu em contato com a natureza. “Eu nasci e fui criado no interior. A gente aprende a escolher as melhores espécies para ter uma vida melhor. É plantar, não desmatar, para que outras pessoas possam colher e comer. A gente foi criado comendo amora, essas coisas.” E ele acompanha de perto quem passa pela calçada. “Quando a gente planta e sabe que alguém está colhendo e se alimentando de algo que a gente plantou, é satisfatório. É um orgulho. E fica como exemplo para outras pessoas.”, pontua.

O movimento também é percebido por Flávio Cruz, síndico e morador de um dos prédios em frente às árvores. “A criançada sai da creche, passa aqui da escola. Tem sempre família pegando. A gente também cata aqui. Tem essa árvore e tem outra, do outro lado da rua, que é mais antiga. O pessoal está sempre pegando e comendo na hora mesmo.” Para ele, plantar árvores nas cidades é importante não apenas pelos frutos, mas também pela sombra e pelo conforto térmico. “A gente mora numa cidade serrana que tem muitas árvores. Infelizmente, as ruas estão cada vez mais asfaltadas. Acho que precisa plantar árvores, de preferência árvores que gerem sombra, porque isso reduz um pouco o calor. Com tanta mudança climática, a gente precisa de árvore.”, ressalta.

Pode comer fruta direto do pé?
Apesar de ser um hábito comum, a fruta colhida diretamente da árvore não está necessariamente limpa. Poeira, sujeira, insetos e microrganismos podem estar presentes na superfície do alimento. Por isso, a recomendação é lavar frutas e verduras antes do consumo. Para alimentos consumidos crus, as autoridades de saúde também orientam a higienização com produto adequado, como solução de hipoclorito de sódio própria para alimentos, sempre seguindo a concentração e o tempo indicados no rótulo. Flávio lembra que o costume de comer frutas direto do pé atravessa gerações. “O certo é lavar. De preferência, fazer a higienização adequada para eliminar bactérias e outros microrganismos. Mas, na nossa infância, a gente pegava direto do pé. Então, hoje em dia, a gente continua pegando.” A diferença é que, atualmente, o cuidado com a higienização é recomendado mesmo quando a fruta parece limpa.

E se a fruta estiver no chão?
Nesse caso, a atenção deve ser redobrada. A fruta pode ter entrado em contato com terra, fezes ou urina de animais e outros tipos de contaminação. Por isso, o mais seguro é evitar consumir frutos que estejam caídos no chão, especialmente quando estiverem sujos, machucados ou deteriorados.

Amoras também alimentam os pássaros
Além das pessoas, os frutos também fazem parte da alimentação de aves. Os pássaros podem consumir as amoras e ajudar na dispersão das sementes, contribuindo para que novas plantas surjam em outros lugares. Tânia Ferreira, aposentada, costuma colher as frutas quando passa pela região. Ela prefere as mais maduras. “Principalmente as mais escurinhas. São as mais gostosas, mais docinhas.” Tânia também vê o plantio como uma forma de incentivar as pessoas a aproveitarem melhor os espaços da cidade, mas sem prejudicar as árvores. “Já que está plantada, dando fruto, vamos colher. Mas com cautela, sem danificar nada, para a gente aproveitar.” E lembra que os frutos não são exclusividade dos humanos. “Elas servem também para os passarinhos. Eles gostam bastante.”
A aposentada Marta Mendes também não esconde o entusiasmo quando encontra uma árvore carregada. “Quando tem fruto assim no pé, eu adoro. Já comi jabuticaba, amora… Vou comendo tudo o que tem na frente.” Moradora do Rio de Janeiro, ela diz que encontrar frutas disponíveis nas ruas é uma das coisas que mais aprecia na serra. “No Rio quase não tem isso. Aliás, eu moro perto do Palácio do Catete. Lá até que tem muitos pés de manga. Quando é época de manga, cai muita manga, cada manga bonita e boa. É muito bom pegar do pé.” No fim, uma simples amoreira acaba reunindo muito mais do que frutos. Tem memória de infância, alimentação, sombra, convivência e natureza.







