Quem nunca prestou atenção na conversa na mesa ao lado que atire a primeira pedra. A padaria estava vazia, e era possível ouvir duas pessoas. Falavam sobre terem subido na vida, e agora não conseguirem, ou se sentirem deslocados nas festas da família.
Engraçado que todo assunto muito longo é como uma grande roda de sentenças, que vai girando até chegar ao ponto zero, de incertezas. É comum durante um bate-papo de padaria fazermos autoavaliações no próprio discurso, e foi isso que ocorreu entre os amigos.
Afinal, o que é subir na vida, senão a opinião sobre nós diante dos outros, e não sobre nós mesmos?
Depois de longos minutos, a conclusão dos amigos foi a mesma. Parece que ambos cresceram com alguma dificuldade, famílias grandes, conseguiram as coisas com esforço e alguma dose de sorte. Estudaram, ganham relativamente bem, e agora frequentam círculos sociais que para seus parentes equivalem a festas de um conhecido banqueiro que tem estado no noticiário nos últimos meses.
Ou seja: evoluir na profissão permitiu conhecer novas pessoas, uma estratificação social, mesmo que discreta, e ter acesso a quem tem mais poder de decisão sobre coisas relevantes na cidade. Permanecem pessoas comuns, porém visivelmente diferentes do ambiente de onde vieram.
A realidade de muitos de nós aqui, não é mesmo?
Segundo eles mesmos, subiram na vida em comparação ao lugar de origem. Mas para os locais que frequentam, ou às pessoas a que têm acesso, muito certamente são somente mais um, ou ainda apenas emergentes.
A estratificação social costuma ser ainda mais pesada contra eles.
Este papo entre os amigos ainda entrou nos temas saúde e satisfação, mas daí já teríamos outras crônicas bem maiores.