Maria Eduarda Maia
Quem caminha pelo Parque Natural Municipal Montanhas de Teresópolis pode não imaginar a quantidade de animais que circulam pela mata, muitas vezes sem serem vistos pelos visitantes. Entre a vegetação da Mata Atlântica, distribuída em mais de 5,3 mil hectares, diferentes espécies encontram abrigo e alimento, fazendo parte de uma biodiversidade que vai muito além do que os olhos conseguem alcançar. Criado em 6 de julho de 2009, durante as comemorações pelo aniversário da emancipação político-administrativa de Teresópolis, o parque se consolidou como um espaço de conservação ambiental, pesquisa científica e visitação turística.

E parte dessa riqueza natural ganha destaque por meio de registros feitos por câmeras-trap instaladas na unidade de conservação. Os equipamentos, acionados automaticamente pela presença ou pelo movimento dos animais, permitem registrar a fauna silvestre sem a necessidade de contato direto com os indivíduos. Em vídeo divulgado recentemente pela secretaria municipal de Meio Ambiente, aparecem espécies como onça-parda (Puma concolor), pica-pau-de-cabeça-amarela (Celeus flavescens), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), caxinguelê (Guerlinguetus aestuans), gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), juruva-verde (Baryphthengus ruficapillus) e murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana).

Além de revelar a diversidade de animais que habitam o parque, as imagens fazem parte de um trabalho contínuo de monitoramento e pesquisa. Os registros ajudam os pesquisadores a compreender como as espécies utilizam o território, identificar padrões de comportamento e reunir informações importantes para a conservação da fauna local.

Monitoramento ajuda a conhecer a fauna
O acompanhamento da biodiversidade é realizado com o apoio de uma estrutura de pesquisa que vem recebendo investimentos no Parque Montanhas de Teresópolis. O município mantém uma equipe formada por veterinários e biólogos especializados, além de cerca de 20 câmeras-trap utilizadas no monitoramento da fauna silvestre. O Centro de Pesquisas da Inconha também passa por um processo de ampliação, com a implantação de laboratórios e da Casa do Pesquisador, iniciativas voltadas ao fortalecimento das atividades científicas desenvolvidas na unidade.

De acordo com o coordenador de pesquisa e biodiversidade do PNMMT e veterinário responsável pelo ambulatório da unidade, Alfredo Pinheiro, o monitoramento permite obter informações que dificilmente seriam reunidas apenas por meio de observações em campo. “A gente precisa saber a densidade populacional, quantos indivíduos têm, se os indivíduos se apresentam saudáveis ou não. Através da câmera a gente pode ver até se o animal está parasitado, o estado nutricional dele. Muitos dados a gente consegue obter em função desse monitoramento”, explicou, em uma entrevista ao Diário.
As imagens, portanto, vão além do registro visual. Quando analisadas em conjunto, podem contribuir para estimar a presença e a distribuição das espécies, acompanhar mudanças ao longo do tempo e identificar possíveis ameaças à vida silvestre.

Estudo identificou 20 espécies de mamíferos
A importância desse trabalho também aparece em um levantamento científico realizado no parque entre 2020 e o final de 2022. A pesquisa identificou 20 espécies de mamíferos de médio e grande porte, reforçando a diversidade da fauna local e a relevância da preservação dos remanescentes de Mata Atlântica. Para realizar o levantamento, os pesquisadores utilizaram armadilhas fotográficas instaladas em pontos previamente definidos. Ao longo dos trabalhos de campo, foram posicionadas entre 10 e 15 câmeras, cujos registros eram organizados em planilhas e posteriormente analisados.

Entre as espécies identificadas estão o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), felino nativo da Mata Atlântica; a jaguatirica (Leopardus pardalis); o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), que apresenta hábitos predominantemente diurnos; e a onça-parda. Outro registro que chamou a atenção dos pesquisadores foi o do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), espécie tradicionalmente associada a ambientes abertos, como o Cerrado. Sua presença no levantamento amplia o interesse sobre a distribuição dos mamíferos na região e sobre as possíveis mudanças na ocupação de seus habitats.
O estudo também apontou um dado que exige atenção: espécies exóticas corresponderam a 30% das imagens captadas pelas armadilhas fotográficas. A presença desses animais pode representar uma ameaça à fauna nativa, já que eles podem competir por recursos e provocar desequilíbrios ecológicos. O resultado reforça a importância de ações de manejo e de acompanhamento não apenas dentro do parque, mas também em seu entorno.



