Eudes Silveira *
Quem for às compras na Black Friday, em 27 de novembro, vai encontrar nas prateleiras mercadorias que atravessaram o oceano no período mais caro do ano para o transporte marítimo. Segundo levantamento da Solve Shipping divulgado em julho, o frete de um contêiner de 40 pés entre a Ásia e o Brasil saiu de cerca de US$1.500 em janeiro para algo entre US$7 mil e US$8 mil em junho, justamente quando o varejo fechava as encomendas de fim de ano. Esse custo já foi pago e tende a encurtar a margem disponível para descontos.
Eudes Silveira, gerente de desenvolvimento de negócios e produtos internacionais, acompanha o comércio exterior há cerca de 30 anos e aponta o combustível como o principal vetor de pressão. “Se você tem aumento do preço do óleo, você tem aumento do preço do frete”, resume. O petróleo atravessa um ano de instabilidade desde o fechamento do Estreito de Ormuz, em março e o combustível dos navios subiu junto.
O efeito vai além do transporte. Derivados de petróleo estão na base de plásticos, embalagens e diversos insumos industriais. “O custo do petróleo mais caro impacta o custo da embalagem. O produto embalado numa embalagem mais cara vai gerar um produto mais caro”, explica Eudes. Brinquedos e vestuário estão entre as categorias que ele recomenda observar com atenção, por serem em boa parte importados da Ásia e por terem valor relativamente baixo diante do espaço que ocupam no contêiner, o que faz o frete pesar mais no preço final.
A pressão não ficou no primeiro semestre. Em 15 de outubro, a armadora CMA CGM passou a cobrar US$1.000 a mais por contêiner nos embarques da Ásia para a costa leste da América do Sul, rota que inclui os portos brasileiros. Uma semana depois, em 22 de outubro, o índice global da consultoria Drewry subiu 2%, para US$4.585 por contêiner de 40 pés, o maior valor em 15 semanas. O indicador acompanha sobretudo as rotas entre Ásia, Europa e Estados Unidos, mas sinaliza a direção do mercado.
Para a Black Friday, a alta recente chega tarde. Com trânsito de 35 a 45 dias entre os portos asiáticos e Santos, as mercadorias da data já estão no país ou em alto-mar. O risco maior recai sobre a reposição de Natal, principalmente para quem deixou parte das compras para o último trimestre. Atrasos completam o quadro: um contêiner que desembarca fora do prazo pode deixar a loja sem o produto justamente na semana de maior procura.
O repasse ao consumidor, porém, varia de empresa para empresa. Quem antecipou compras, fechou contratos de frete de longo prazo ou ainda tem estoque adquirido a custo menor consegue absorver parte do aumento e preservar os descontos. Para quem vai às compras, a orientação de Eudes é acompanhar a evolução dos preços nas semanas anteriores e comparar ofertas antes de fechar negócio.
- Eudes Silveira é gerente de desenvolvimento de negócios e produtos internacionais, com cerca de 30 anos de experiência em comércio exterior. Atua no desenvolvimento de operações de importação e exportação, logística internacional e soluções para empresas que negociam com diferentes mercados. Sua trajetória inclui estruturação de operações internacionais, negociação com fornecedores, transporte de cargas e acompanhamento de processos relacionados à entrada e saída de produtos do Brasil.




