O espelho não mente sobre a passagem do tempo. A postura marcada pelas exigências do cotidiano deixa claro que os anos se acumularam. O corpo segue o ritmo do tempo, vamos envelhecendo, notando o reflexo alterado, limitações, e cada par de anos as mudanças físicas parecem mudar a aparência como se fossem dez. Somos um amontoado do que a vida foi sendo e exigindo de nós. A gente vai se distraindo com as responsabilidades e de repente o espelho mostra uma imagem que não condiz com o espírito, já que, em essência, somos os mesmos de décadas atrás.
Tendemos, ou somos tentados a encarar a maturidade como o topo, como um estado em que o passado reside em outra dimensão. Julgamos a maturidade simplesmente pelo acúmulo de velas no bolo, e os enfrentamentos da vida. Episódios marcantes como concluir um curso, começar a trabalhar e ter responsabilidades financeiras e relacionais ditam a regra. Mas a nossa mente carreta, intacta, a bagagem dos primeiros anos. E nem precisamos de Freud para sabermos disso.
Diante de frustrações, dos medos ou das rejeições, nem sempre reagimos com a lucidez do adulto que aparentamos ser. Muitas vezes, é aquilo que ficou reprimido ou guardado lá atrás que assume o comando. Vemos isso na dificuldade de manter vínculos afetivos, no medo do abandono, nas dinâmicas familiares conturbadas ou nas barreiras de adaptação no ambiente profissional.
São campos distintos onde transparece uma mesma verdade: ninguém é plenamente equilibrado ou resolvido.
A grande ilusão da vida adulta é acreditar na existência da pessoa perfeita. Todos carregam um vazio existencial estrutural, ou aquela incômoda insatisfação que nos faz desejar constantemente o que não temos ou fantasiar sobre a vida que não vivemos.
Se a maturidade não é a ausência de falhas nem a busca por um equilíbrio inabalável, o que ela é? Talvez seja, fundamentalmente, a capacidade de aceitar o real. É a disposição de encarar o tédio da rotina, de gerir o tempo e o orçamento sem fantasias, e de assumir o peso das próprias escolhas, seja na carreira, na condução da família ou na educação dos filhos. Ser adulto é saber lidar com as limitações que a realidade nos impõe sem recorrer ao birrento desejo de que as coisas fossem diferentes.
No fim das contas, envelhecer com alguma sabedoria não significa apagar a criança que fomos, mas aprender a dialogar com ela. Reconhecer que, por trás da gravata, do terno ou do crachá, somos apenas velhos meninos e meninas tentando decifrar o mundo, e que isso não é uma fraqueza, mas a condição que nos une a todos.