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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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A redação como libertação — e por que isso ainda importa

Sou um ghostwriter? Sei lá. O título foi-me dado em 1988, por um deputado federal. Não foi de passagem, no meio de uma conversa qualquer. Ele me homenageou na presença de 100 ou 120 pessoas em um encontro de treinamento.
Por que fui chamado de ghostwriter? Por escrever por encomenda. Parei em 2018. Que sorte, né? Logo depois veio a inteligência artificial. Se eu tivesse mantido a profissão, estaria hoje em maus lençóis, pois a IA escreve para uso de qualquer pessoa, sobre qualquer assunto e em qualquer língua. A inteligência artificial não assume o compromisso de não errar.
Faz bastante tempo, muitos anos, que, num curso de extensão universitária a distância, promovido pela Universidade de Brasília (UnB), recebi a apostila “A Redação como Libertação”. Ainda a tenho comigo.
O material, organizado pelo professor Hildo Honório do Couto, apresenta uma concepção de escrita que ultrapassa o aprendizado das regras gramaticais e das técnicas de composição. A proposta é estimular a criatividade, desenvolver o pensamento crítico e despertar nas pessoas a confiança na sua própria capacidade de expressão.
A primeira lição que guardo é a de que escrever não deve ser um exercício de submissão às palavras, mas de liberdade diante delas.
Muita gente foi ensinada a considerar a redação uma atividade reservada aos que dominam perfeitamente a gramática, conhecem palavras sofisticadas ou possuem algum talento especial. Essa concepção transformou a escrita num território acessível apenas a poucos privilegiados.
A Redação como Libertação rompe com esse preconceito. Escrever é uma capacidade que pode ser desenvolvida, porque temos ideias, experiências e opiniões que merecem ser expressas.
A gramática deve servir ao pensamento, e não aprisioná-lo, pois existe uma diferença importante entre escrever corretamente e escrever bem.
A correção é indispensável, mas não é suficiente. Um texto pode ser gramaticalmente impecável e, ainda assim, não comunicar uma ideia relevante. Da mesma forma, um pensamento original pode perder sua força quando apresentado sem clareza. O desafio para quem escreve está em conciliar liberdade, conteúdo e precisão.
Outra contribuição do curso de extensão da UnB sobre a redação como libertação foi estabelecer uma relação entre a escrita e o pensamento crítico, pois escrever não é simplesmente transferir para o papel aquilo que já sabemos. Muitas vezes, é durante a elaboração do texto que descobrimos o que realmente pensamos.
Ao tentar explicar uma ideia, percebemos suas fragilidades. Ao construir um argumento, somos obrigados a examinar suas premissas. E defender uma opinião nos leva a fazer perguntas que nunca nos fizemos.
A escrita, portanto, não é apenas um instrumento de comunicação. É também uma ferramenta de investigação. Uma sociedade democrática precisa de cidadãos capazes de interpretar informações, questionar discursos, identificar contradições e apresentar argumentos próprios. Quem não desenvolve essa capacidade corre o risco de se tornar apenas um repetidor das ideias dos outros.
O curso também recorria a textos que provocavam a reflexão e estimulavam a criatividade. Entre eles, lembro especialmente uma passagem atribuída a São Gregório de Nissa. A passagem questiona o valor da caridade quando a riqueza utilizada para praticá-la tem origem na exploração de outras pessoas.
O que me impressiona nesse texto não é apenas a força da linguagem, mas sua capacidade de nos obrigar a examinar nossas próprias convicções.
Outro nome associado ao material era Henfil, o extraordinário cartunista brasileiro, que tratava a criatividade não como um privilégio de gênios, mas como uma capacidade humana que pode ser estimulada.
Essa perspectiva estimula a observação, a imaginação, a curiosidade e a coragem para formular interpretações próprias.
A criatividade não dispensa o conhecimento. Ao contrário, alimenta-se dele. Quanto mais lemos, observamos, estudamos e questionamos, maiores são nossas possibilidades de estabelecer relações entre ideias e encontrar novas formas de expressão.
Hoje, quando a inteligência artificial já é capaz de produzir textos com impressionante rapidez, essa discussão ganha uma dimensão adicional.
As ferramentas tecnológicas podem auxiliar na pesquisa, na organização das ideias e na revisão da linguagem. Mas não deveriam substituir aquilo que constitui a contribuição mais importante de quem escreve: sua capacidade de observar a realidade, formular perguntas, estabelecer relações e assumir a responsabilidade por suas conclusões.
Um texto pode ser tecnicamente perfeito e intelectualmente vazio.
Por isso, considero que a grande lição de A Redação como Libertação permanece válida: a finalidade maior do aprendizado da escrita não é produzir frases bonitas, mas formar pessoas capazes de pensar e de se expressar com autonomia. Escrever é escolher palavras e argumentos, assumir posições, confrontar ideias e aceitar a possibilidade de mudar de opinião.
A liberdade de escrever começa com a liberdade de pensar.

Jackson Vasconcelos

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