A escola de samba Acadêmicos de Niterói fez feio na avenida, provocou polêmica e foi rebaixada. Bem feito!
Saibam vocês, gente mais nova, que, no passado, uma das tarefas de nós estudantes do ensino primário era ler em voz alta alguns trechos dos livros clássicos. A minha professora de língua pátria – esse era o título das aulas de português – premiava os alunos com melhor desempenho e eu fui, algumas vezes, o vencedor. Uma delas com a leitura da obra de Castro Alves, “O Navio Negreiro”.
A professora exigia o cumprimento rigoroso das pausas e da entonação, para que a leitura organizasse a harmonia com o ritmo, de modo tal que o texto não perdesse a beleza e o sentido dados pelos autores.
“Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
Eis aí representado o desfile da Acadêmicos de Niterói: Que tétricas figuras; que cena infame e vil. Que horror…
A Acadêmicos de Niterói foi o que chamam de “cereja do bolo”. A escola conseguiu o feito inusitado de provocar a reação dos que buscam e querem os votos dos evangélicos e de Jair Bolsonaro, produto valioso nesse tempo de eleições.
Mais de 30%, quase 40% dos eleitores brasileiros identificam-se como “evangélicos”. No desfile a Escola apresentou uma ala apelidada de “Família na lata”, com personagens dentro de latas estilizadas para zombarem das famílias tradicionais e a valores religiosos. Certas encenações foram vistas como ofensivas às comunidades evangélicas.
Imediatamente, após o desfile as redes foram inundadas com imagens criadas por IA de latas de ervilhas com os retratos de famílias de políticos tidos como evangélicos e conservadores, num contraponto à mensagem da escola. Há no grupo gente oportunista e gente com boa intenção.
As pessoas que, bem intencionadas, apareceram nas redes com os retratos de suas famílias nas latas. O problema ali é outro. A questão que contraria a fé está no comando das escolas e no financiamento delas, de todas elas. O crime as comanda e o crime as financia.
Encerro socorrendo-me de um sermão do Padre Vieira, que pode sim dizer da eficiência dos 30%, quase 40% dos eleitores brasileiros no momento da destinação de seus votos.
Pregou Vieira:
“Vós, diz Cristo, Senhor Nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar…” Paro por aqui, mas vale conhecer a íntegra do Sermão, chamado de “Sermão de Santo Antônio aos peixes”, pregado em São Luís do Maranhão.
Bom fim de semana.

