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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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É a vontade de Deus ou dos humanos?

“O erro e o pecado são meus, mas onde está a nossa vontade, se tudo é vontade de Deus? Apenas não sei ler direito a lógica da criação…”
Oswaldo Montenegro compôs essa oração. É belíssima.
Pois bem: “Onde está a nossa vontade, se tudo é vontade de Deus?”
O verso é perfeito para aqueles que gostam de colocar o resultado de suas próprias decisões na conta de Deus. Políticos, por exemplo, adoram terceirizar responsabilidade.
Se ganham eleições, é porque Deus quis. Consideram-se ungidos. Querem, porque querem, ser a prova da interferência divina na vida de uma nação.
Quando tudo dá errado — porque tomaram as piores decisões — apelam novamente para Deus e soltam a conversa fiada de que “Deus tem os seus propósitos”.
Almir Guineto, outro grande compositor brasileiro, falecido em maio de 2017, escreveu “Saco Cheio”.
A letra diz: “Os habitantes da Terra estão abusando; o nosso supremo divino sobrecarregando. Fazendo mil besteiras e o mal sem ter motivo. E só se lembram de Deus quando estão em perigo.”
Volto, então, a Oswaldo Montenegro, quando ele admite: “apenas não sei ler direito a lógica da criação”.
Qual é a lógica da criação? Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Assim nos criou. Por isso temos o privilégio da vontade própria e de escolher os caminhos que seguimos. Temos o livre-arbítrio. Deus nos dotou do poder de decidir e agir segundo a nossa consciência.
Se há miséria no mundo, isso é responsabilidade daqueles que têm muito e não se importam com os que nada têm. Mas pode ser também fruto da preguiça de uns ou da diligência excessiva de outros. Seja qual for a razão, a verdade é que Deus nada tem com isso. Ele criou o universo e o colocou à disposição do ser humano.
Se ainda existem doenças incuráveis, é porque a ciência não avançou o suficiente — embora já tenha avançado muito. Se há roubos, é porque alguém decidiu tirar dos outros, à força, aquilo que não quer conquistar pelo trabalho.
Se juízes julgam mal, isso decorre das decisões deles; e, se essas decisões produzem injustiças, a causa pode estar em advogados ruins, leis mal formuladas ou falhas do sistema. Tudo isso é fruto da liberdade que cada um tem para decidir e agir. Deus não tem nada com isso.
E podemos seguir nessa toada para cada situação que o mundo enfrenta.
Na raiz dos problemas está o ser humano, com sua liberdade para escolher e agir. Por isso Jesus Cristo, até o ponto de ser julgado, condenado e crucificado — por decisão de seus inimigos — insistiu que o mal acabará quando todos os seres humanos passarem a decidir, seja o que for, e agir, seja como for, com sentimento pelo próximo.
Ou o ser humano se convence disso, ou continuará a sofrer os males das guerras, das injustiças e da própria miséria — que pode ser miséria do bolso ou do espírito.

Jackson Vasconcelos

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