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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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O Rio não é para gente de boa cabeça

Em apenas oito anos — tempo de dois mandatos de governador — tivemos a expulsão de um governador eleito; a posse do vice-governador no cargo; a eleição dele e de um novo vice-governador no primeiro turno; a saída do vice e, agora, a antecipação do fim do mandato do governador, tornado inelegível, sem que se saiba quem irá substituí-lo.
A Assembleia Legislativa elegeu às pressas um novo presidente para a Casa, para que ele substituísse o governador, mas a Justiça Eleitoral anulou a escolha. É uma ciranda de aves de mau agouro.
Da última vez em que estive no Palácio Guanabara, para uma audiência com o governador, eu estava acompanhado por Rubem Medina. Levávamos a Cláudio Castro um exemplar de Isto de Política, meu caro…, livro que narra uma trajetória dedicada à democracia — uma dessas ideias que, no Rio, sobrevivem mais como peça de museu do que como prática de governo.
Enquanto esperávamos, uma placa na sala de espera chamou minha atenção: “Rota de Fuga”. “É uma exigência do Corpo de Bombeiros, para casos de incêndio…”, disse-me uma das assessoras do governador, que, por um sorriso, mostrou que entendeu a ironia.
Cláudio Castro até ensaiou contrariar a tradição. Não conseguiu. O governo dele esfarelou-se por dentro, enquanto, do lado de fora, uma turma disputava os farelos. É o enredo de azar de uma cidade e de um estado chamados pelo mesmo nome.
Coisa antiga.
Um dia, a cidade dormiu sendo capital da República e acordou sendo estado — o estado da Guanabara. Outro dia, dormiu sendo estado e acordou cidade, capital de um estado novo no nome, velho e carcomido pelas espertezas dos políticos.
Somos a terra do absoluto ineditismo político.
Em 1994, o estado conheceu uma eleição para deputados federais e estaduais em dois turnos — caso único no Brasil até hoje, resultado de uma fraude na apuração dos votos, operada numa proporção inacreditável.
O epicentro da crise foi a 25ª Zona Eleitoral, em Santa Cruz, onde Luiz Fux atuava como juiz eleitoral. Ele definiu a situação como “impressionante e revoltante”.
A imprensa noticiou na época ameaças ao Juiz pelo Comando Vermelho, interessado, sabe-se bem o motivo, pelo resultado da eleição. Luiz Fux é hoje Ministro do TSE, e está à frente do processo que busca definir um mandato tampão para alguém governar o estado até a posse daquele que será eleito pelo povo daqui a seis meses.
A dificuldade de encontrar o fio da meada dos votos apurados em 1994, fez a Justiça Eleitoral anular a eleição dos deputados federais e estaduais e justificou a convocação de uma nova votação para poucos dias depois.
Os deputados eleitos na primeira eleição e derrotados na segunda foram ao TSE e lá, eles conseguiram a reversão do processo.
Resultado: os deputados eleitos na segunda eleição e empossados perderam o mandato e também recorreram. Durante anos, todos os deputados ficaram colocados sobre um solo de gelo, em um ambiente de calor escaldante.
Os mandatos foram e voltaram até a eleição seguinte.
As fraudes de 1994 no Estado do Rio de Janeiro estimularam a criação das urnas eletrônicas — essas contra as quais bastante gente ainda se levanta.
O que conecta esse labirinto institucional de agora às fraudes de 1994 não é apenas o acaso histórico, mas a permanência de uma cultura política em que regras são maleáveis, controles são frágeis e a disputa pelo poder frequentemente ultrapassa os limites do próprio sistema que deveria regulá-la.
A política praticada no Rio de Janeiro, cidade e estado, é um culto ao absurdo.

Jackson Vasconcelos

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