Quinze anos depois de ter restaurado dois mapas preciosos para a história de Teresópolis, em contribuição pelo movimento de recuperação da cidade depois da Tragédia de 2011, o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro deu outro presente à cidade neste mês, recuperando um outro mapa feito pelo agrimensor Edward Laplane, em 1875, quando foram levantadas as terras remanescentes da fazenda Santa Ana do Paquequer. O bem histórico foi recolhido na Casa da Memória Arthur Dalmasso pelas servidoras Gláucia Vaz e Maria Julia Faisal Cardoso, em agosto do ano passado e, agora, um ano depois, acompanhado do Sub-secretário Arnaldo Almeida, o secretário de Cultura Wanderley Peres foi ao Arquivo Nacional para buscar o mapa restaurado, somando-se às outras duas pranchas do acervo da Casa da Memória Arthur Dalmasso.

Essas outras duas pranchas do mapa, mostrando os morros das fazendas desde a Prata e o Meudon, e regiões próximas à Várzea, já haviam sido restauradas em 2013, e estão à disposição de pesquisadores também em formato digital. Propriedade do cidadão Francisco Barthel, dono da Fazenda Casa Branca, que chegou às mãos do médico e historiador Antônio Sumavielle, os dois primeiros mapas haviam sido doados ao município pelo médico José da Silva Pereira em 2011, e essa terceira prancha, há pouco tempo encontrada, também foi doada pelo médico, três anos atrás, entregue ao diretor da Casa da Memória Rafael Corrêa. “Todos os preciosos guardados do médico Antônio Sumavielle foram doados ao Pró-Memória Teresópolis em 2010, pelos amigos Iza e José Pereira, quando encontrei enroladas as duas primeiras pranchas desse mapa do agrimensor Edward Laplane. No ano seguinte, eles foram buscados para o restauro e entregues em 2013. Aí, levantando o rico acervo, encontrei a terceira das quatro pranchas do mapa, dobrada dentro de uma bolsa, perdido entre tantos outros itens de menos importância, e devolvi ao Pereira, para que fizesse a entrega, pessoalmente, à Casa da Memória, o que ocorreu em julho de 2022, quando lancei o livro Viagem ao Passado”, conta o secretário de Cultura Wanderley Peres.

Voltando à mesma função na Secretaria de Cultura, Wanderley fez contato com o Arquivo Nacional ainda em janeiro de 2025, pedindo a gentileza do restauro do mapa que faltava, e meses depois, uma equipe do órgão federal esteve em Teresópolis para a retirada do mapa. “Não conhecia ninguém do Arquivo Nacional, e arrisquei o pedido num e-mail onde apontei para a importância do restauro e o risco de perda do bem em depreciação, sem esquecer de agradecer, mais uma vez, pelo presente de mais de dez anos atrás. Demorou mais de 6 meses para a resposta, mas ela veio na forma do sim, e logo estiveram na cidade as servidoras Gláucia Vaz e Maria Julia, que revisitaram os mapas restaurados e levaram o que faltava recuperar. E, agora, um ano depois, os mapas voltaram para a Cultura, devidamente restaurados pelas mãos cuidadoras das zelozas servidoras que trabalharam diretamente no processo, Alda Arcoverde e Bárbara Braga, da área de Coordenação de Preservação do Acervo”, contou o secretário, que lembrou às artistas do restauro saber muito bem quanto custaria um serviço desses, por isso a cidade de Teresópolis estava agradecida tão penhoradamente pelo presente. “O dono dos mapas, doutor Sumavielle, deixou em seus documentos o orçamento do restauro de uma das pranchas, a que ainda está desparecida. E quando esta prancha for recuperada a partir das investigações da Secretaria de Cultura vamos voltar a pedir um novo favor”, ousou o secretário, não ouvindo um não, e percebendo um sorriso que deu a esperança de ver atendido o pedido já antecipado enquanto o mapa que falta não chega ao acervo municipal.

O SERVIÇO DE RESTAURAÇÃO
Os três mapas foram submetidos a diversas técnicas de restauração. Houve limpeza mecânica; teste de solubilidade para verificar a estabilidade das tintas e proporcionando maior segurança no tratamento; consolidação dos rasgos para dar maior estabilidade no decorrer do tratamento; aplainamento pontual de suporte; laminação do documento pelo verso com papel artesanal e cola metilcelulose; secagem e aplainamento sob peso; remoção das consolidações no anverso do mapa; reencolagem e uso de prensa hidráulica para aplainamento final de todo mapa; refilamento das bordas; reintegração cromática de algumas áreas com lápis aquarelado e confecção de embalagem em etaflon para transporte e guarda do documento.
Os dois mapas recuperados inicialmente estão identificados com a numeração ‘3’ e ‘4’, mostrando a região da Posse ao Meudon; e a prancha 2 mostra a Várzea, da Cascata Guarani ao Vale do Paraíso. Falta, agora, encontrar a prancha 1 desse conjunto de quatro mapas, que mostra a região da sede da Fazenda March e o Alto de Teresópolis.
Os três mapas foram presenteados ao município pelo veterinário José da Silva Pereira, que foi convidado a fazer parte do grupo que recebeu os documentos de volta depois de restaurados. “Estou muito feliz. Eu vi que a história podia morrer ali. Herdei todo o acervo cultural do Doutor Antônio de Oliveira Sumaviele, que não tinha filho homem e era um pai para mim. Eu confesso que pensei em guardar e mandar recuperar os mapas e ficar para mim e para minha família. Eu pensei que não seriam valorizados”, admite o doador. “Mas conversei com o secretário Wanderley Peres, mostrei para ele e doei para a Prefeitura. Acredito no trabalho dele e hoje tenho a prova de que vale a pena acreditar em alguém que faz a coisa funcionar., os mapas estão aí, recuperados, para quem gosta da história de Teresópolis”, comemora. Atento aos detalhes do documento, Pereira constatou a favelização da cidade. “O que eu lamento é que aqui no mapa tem a Serra dos Cavalos. Hoje se você olhar é uma favela. Então Teresópolis tem que amar mais a cidade e ter mais memória”, analisa o veterinário, que faz um apelo. “Não podemos abandonar a nossa história. Porque se você perde um pai ou uma mãe, você é órfão. Se você perde um nome, você não é nada. Se Teresópolis perder a memória, não é nada. Graças ao Wanderley Peres, e seu grupo de trabalho aqui na Cultura, Teresópolis está restaurando e recuperando a sua memória”, finaliza.



