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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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Transpirenaica, cruzando parques e as altitudes dos Pirineus

Difíceis trechos nas partes mais altas protegem as impactantes belezas dessa região e valem todo o esforço despendido

Se analisado etimologicamente o nome Transpirenaica já é autoexplicativo, ou seja, significa atravessar os Pirineus. Mas, nessa terceira coluna especial sobre a travessia em duas rodas que realizei por essa cadeia de montanhas que se divide entre Espanha, França e Andorra, o tema tem como foco específico os momentos em que “essa rota é vivida na sua essência”, as etapas que cruzei as partes mais altas e os parques que garantem a conservação da beleza cênica e diferenciada biodiversidade em uma região na maioria das vezes inóspita e marcada por estações extremas e momentos onde a aspereza da condição climática impede inclusive sua visitação. Pedalei acima dos dois mil metros de altitude, em relação ao nível do mar, e pude admirar de ângulo diferenciado esse aglomerado montanhoso que há alguns anos permeava meus pensamentos.

No Mirante de Ordesa, de onde se contempla toda a grandiosidade do Parque de Ordesa y Monte Perdido, entre Espanha e França

Para quem não leu as anteriores, a rota Transpirenaica tem início em Llançá, na região de Girona, e termina em Hondarribia, País Basco, ambas na Espanha, passando ainda pela França e Andorra. Mas, apesar da sua base ser os Pirineus, só se começa a vivenciar a experiência das altitudes da cadeia de montanhas no terceiro dia. No roteiro tradicional, a saída é em Camprodon e, 15 quilômetros depois, uma serrinha asfaltada leva até Tregurà. Logo após cruzar esse povoado de origem celta, a primeira experiência de pedalar entre montanhas de grande altitude, com a estrada já batendo cerca de 1900 metros de altitude. Nessa etapa o ciclista cruza o Parc Natural de les Capçaleres del Ter i del Freser, podendo sentir o ventinho gelado e um clima bem diferente do encontrado até então. No meu caso, não pude aproveitar muito esse contato inicial com os Pirineus porque começou a chover logo depois que alcancei o ponto mais alto do caminho.

Acima dos dois mil metros de altitude, muitas estradas e possibilidades de aventuras nos imponentes Pirineus

Dois parques em um só dia
Na etapa com saída em Bagá, povoado que cheguei após alcançar os 2.106 metros de altitude do Coll de Pal, local onde já se realizou por mais de uma vez etapa da Volta da Espanha, atravessei duas unidades de conservação. A primeira, o Parc Natural del Cadí-Moixeró, marcada mais pela vegetação característica de regiões mais frias e altas, e, logo em seguida, o Parc del Massís del Pedraforca – esse sim chama atenção pelas imponentes formações rochosas, como a própria Pedraforca. Foram duros 17 quilômetros entre esses dois parques, com 1.265 metros de altimetria acumulada e aspereza até na descida, recheada de pedras soltas que me obrigaram a empurrar a bicicleta por um bom trecho.

Estradas, trilhas, montanhas, ovelhas… A inóspita região é rica em opções para o turismo de aventura nesse canto europeu

O “alto Pirineu”
Após um dia tranquilo em povoado vizinho a La Seu D´Urgell, vindo de uma etapa curta somente para retornar da Andorra para o eixo original da rota, foram dois dias atravessando o Parc Natural de l´Alt Pirineu. O primeiro, mais exigente fisicamente do que bonito, com as estradas entre eucalpitos e nenhuma pessoa pelo caminho – foram cerca de 50 km sem encontrar ninguém. O segundo, quase que totalmente imerso na magia dos Pirineus. Também com muita subida, mas sendo possível pedalar em sua totalidade, o trecho entre as cidades de Llavorsí e La Torre de Capdela é inesquecível. Muitas e imponentes montanhas, estradinhas de terra bem firme e pequenas pedrinhas, aproximadamente 2.200 de altitude e um frio típico de inverno, mesmo em pleno verão… A descida é por um lugar chamado Vall Fosca, 12 km agora com grandes e incontáveis pedras que fazem o terreno morro abaixo ser tão lento quanto no sentido contrário.

Chegando em Vall Fosca, após mais de 20 km pedalando acima dos dois mil metros de altitude. “Agora é só descer”

“O dia mais bonito”
No 12º dia de cicloviagem, entre Campo e Escalona, avistei pela primeira vez o primeiro atrativo que me encantou quando pesquisei sobre a Transpirenaica, o centenário Parque de Ordesa y Monte Perdido. Mesmo de longe, ainda na região de Laspuña, já dá para se ter uma ideia da sua grandiosidade. Em Escalona dormi sonhando em atravessar o Cânion de Añisclo e depois seguir para as partes altas dos Pirineus novamente, avistando de um ângulo privilegiado as montanhas dessa unidade de conservação. O dia começou nublado e, após o povoado de Nerín, veio muita chuva, vento e frio. Busquei abrigo e aguardei para seguir montanha acima, via “Sierra de las Cutas”, tendo a felicidade de chegar ao topo com sol e céu azul para sentar no Mirante de Ordesa e admirar por um longo tempo os gigantes paredões entre Espanha e França, imaginando um dia poder caminhar ou escalar boa parte dessas montanhas.

Somente no terceiro dia de pedal se começa a “viver os Pirineus em sua essência”

Há muito mais para ver
Desse mirante até o povoado abaixo, Torla, são 13 quilômetros de descida bem duros também por conta das já citadas pedras soltas. A rota original indica parada nessa cidadezinha, mas tomei rumo contrário, o Vale do Bujaruelo, vizinho ao Ordesa y Monte Perdido. Minha intenção era tirar uma “folga do pedal” para um trekking nessa região, mas um dia inteiro de chuva não permitiu. Me despedi do camping com a certeza que preciso retornar para conhecer melhor tamanha riqueza natural. São muitas possibilidades, tanto que vale uma expedição somente para essa região entre Espanha e França. Na próxima semana vou falar sobre trechos icônicos do Tour de France, prova ciclística mais antiga e importante do mundo, locais que tive a felicidade de conhecer nessa grande aventura em duas rodas. O projeto “Teresópolis na Transpirenaica” tem o apoio da Trilhas e Rumos, Cycle São Cristóvão, Dafel, jornal O Diário e Diário TV.

Acervo Mochileiro – Marcello Medeiros

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Edição 23/02/2024
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