Há, em “A Lanterna na Popa”, de Roberto Campos, um instigante rodapé sobre o chamado “teorema dos dominós”. A leitura desse trecho sugere uma lente interpretativa poderosa para compreender a sucessão de governos que marcaram o Rio de Janeiro — cidade e estado — nas últimas décadas. Com um efeito adicional: revelar, em perspectiva histórica, a tensão entre modelos de organização política e econômica.
Em 1982, Leonel Brizola foi eleito governador do estado. À época, os eleitores ainda não tinham o direito de escolher o prefeito da capital — prerrogativa que cabia ao governador. Brizola nomeou, primeiro, Jamil Haddad e, em seguida, Marcello Alencar.
Esse arranjo institucional produziu um alinhamento político direto. O prefeito, subordinado ao governador, acolheu suas diretrizes — entre elas, uma postura de tolerância ambígua diante da expansão territorial do crime. Isso está no DNA do Eduardo Paes.
A proposta educacional de Darcy Ribeiro, centrada no ensino integral, chegou a retardar esse processo, mas acabou ofuscada pelo viés mais simbólico e performático dos chamados “brizolões”.
A concepção pedagógica de Darcy era consistente — e assim foi reconhecida. Wanda Engel, em seu livro “Pobreza e Desigualdade: dá para superar”, registra tanto o mérito quanto o limite político da iniciativa:
“Com o novo governo, liderado por Moreira Franco, a iniciativa dos CIEPs foi descontinuada. Mais uma vez, um programa de governo, a despeito de seus êxitos, e de contar com grande apoio popular, não conseguiu ultrapassar os limites temporais de uma administração”.
O próprio Moreira Franco, em sua obra “A Política como Destino”, oferece um elemento adicional de reflexão ao revelar que jamais se afastou, em essência, da órbita política de Brizola — o que reforça a ideia de continuidade, mais do que ruptura, naquele ciclo.
Em 1985, já com eleições diretas para a prefeitura restabelecidas, o eleitorado carioca confirmou, nas urnas, a influência política de Brizola ao eleger Saturnino Braga, o cara que declarou a falência da Cidade. Seguiram-se Marcello Alencar e, posteriormente, César Maia — todos, em maior ou menor grau, oriundos da mesma matriz política.
César Maia, em um primeiro momento, ensaiou certo distanciamento desse modelo e elegeu Luiz Paulo Conde como sucessor. Mas, a postura de tolerância ambígua diante da expansão territorial do crime também mostrou estar no DNA de César Maia. Do Luiz Paulo Conde, não.
Parecia o início de uma transição. Contudo, como observa Wanda Engel, a harmonia foi breve:
“A equipe parecia um time harmonioso e duradouro. Tudo levava a crer que a grande orquestra permaneceria afinada por muito tempo. Ledo engano! (…). No pleito seguinte, para a eleição de prefeito, César Maia voltou a se candidatar, desta vez competindo com o próprio Conde (..). O grupo se dividiu. César Maia acabou vencendo com base em muitos acordos políticos, perdendo grande parte da autonomia de que desfrutava no primeiro mandato…” Igualzinho o que acontece com Eduardo Paes desde o primeiro mandato.
Chega-se, então, ao período mais recente, com Eduardo Paes. Ainda que fruto de cisões políticas ao longo do tempo, a linha de continuidade permanece. Marcello Alencar, César Maia e Eduardo Paes — cada qual à sua maneira — orbitam uma mesma tradição política frequentemente associada ao que se convencionou chamar de “socialismo moreno”, aquele que tem a postura de tolerância ambígua diante da expansão territorial do crime.
No âmbito estadual, a sucessão reforça esse encadeamento: Brizola, Moreira Franco, novamente a confirmação de proximidades políticas, seguido por Marcello Alencar, Garotinho, Rosinha — e, possivelmente, novas inflexões sob lideranças já conhecidas, caso o eleitorado não reavalie criticamente esse percurso.
Quando Sérgio Cabral foi eleito com apoio de Eduardo Paes, o jornalista Ricardo Boechat declarou: “finalmente nos livramos do Brizola”. Depois descobrimos a que preço!
Quem quiser manter o modelo de tolerância ambígua diante da expansão territorial do crime, já tem candidato, Eduardo Paes.



