Isla Gomes
O sinal que anuncia a entrada, o recreio e a saída dos alunos ganhou um novo significado na Escola Municipal Maçom Lino Oroña Lema, em Teresópolis. Em vez do tradicional toque estridente, que podia causar sustos e desconforto, os estudantes agora são avisados com músicas. A mudança é simples, mas, segundo a direção, tem feito diferença principalmente para crianças neurodivergentes e com sensibilidade auditiva. A iniciativa surgiu depois que a escola tomou conhecimento de uma legislação estadual de 2023, que autoriza e regulamenta a substituição das sirenes e sinais sonoros estridentes por sinais musicais ou visuais adequados nos estabelecimentos de ensino públicos e privados, a partir disso a escola passou a discutir maneiras de tornar o ambiente mais acolhedor para os alunos. Foi nesse contexto que o diretor André Luiz recebeu a proposta de instalação de uma sirene musical. “Iniciamos esse projeto no intuito de acolher melhor os nossos alunos neurodivergentes”, explica o diretor.

Ainda segundo André, o antigo sinal provocava reações de desconforto em alguns estudantes. “A sirene antiga é um toque muito agressivo. A gente já teve casos de alunos desregularem, de alunos colocarem a mão nos ouvidos, de levarem susto, de disparar o coração”, conta. Ainda de acordo com o diretor André, a escola é a primeira do estado do Rio de Janeiro a receber a sirene musical e outras unidades já demonstraram interesse em conhecer a iniciativa. “É um trabalho pioneiro. Me sinto iluminado de poder receber e divulgar para todas as escolas, dividir essa alegria. Quem ganha com isso é a criança”, afirma.
A mudança também acompanha uma realidade percebida pela própria escola: o aumento da demanda por atendimento a estudantes com diferentes necessidades de aprendizagem e sensibilidades sensoriais. “E essa sirene vem no momento muito oportuno porque nós temos grande demanda de casos aumentando cada dia de alunos com autismo, com sensibilidade auditiva”, afirma André. A proposta, no entanto, não se limita aos estudantes que apresentam maior sensibilidade aos estímulos sonoros. A intenção é transformar os momentos de entrada, recreio e saída em experiências mais tranquilas para toda a comunidade escolar. “E isso vem deixando as nossas aulas, os nossos momentos de entrada, de recreio, de saída mais prazerosos. Uma coisa harmoniosa para que os alunos se sintam acolhidos no ambiente escolar”, diz o diretor.

Tecnologia a serviço do acolhimento
A instalação do sistema foi realizada pela empresa de soluções tecnológicas comandada por Weverton Resende, tecnólogo e técnico em Telecomunicações. Ele conta que a proposta surgiu da tentativa de utilizar a tecnologia para atender a uma necessidade concreta dentro das escolas. “Por ser da área da tecnologia meu maior objetivo é fazer a tecnologia auxiliar diversas áreas e hoje aqui a gente está falando da área de educação”, afirma Weverton.
O sistema permite programar os áudios utilizados em diferentes momentos da rotina escolar. A escolha das músicas também é feita de maneira planejada, em conjunto com a equipe pedagógica. “Planejamos toda a programação e os áudios que são ministrados dentro da escola juntamente com a equipe da escola”, explica. Para Weverton, acompanhar a mudança na prática foi uma das partes mais significativas do projeto. Segundo ele, a equipe conseguiu perceber a diferença entre a reação dos alunos ao sinal convencional e ao novo sistema. “A gente viu o antes, e percebemos a diferença dos alunos, tocando o sinal convencional e depois com a solução integrativa. A gente vê a tranquilidade dos alunos, a felicidade nesse momento quando toca esses intervalos”, relata.

Quando o sinal deixa de ser motivo de susto
Entre os alunos, a mudança já ganhou aprovação. Aos 11 anos, Isabela Almeida conta que o sinal antigo era difícil de lidar, especialmente em momentos que exigiam concentração. “Eu acho que essa mudança foi muito boa. A sirena antes era muito barulhenta”, conta. A estudante lembra que alguns colegas também se assustavam com o toque repentino. “A minha amiga sempre tomava um susto, porque era do nada e era aquele barulho alto. Não gostava. E quando a gente estava fazendo prova, atrapalhava um pouco.” Com as músicas, a percepção mudou. Isabela diz que o novo sinal traz até uma sensação de nostalgia. “Eu sinto um pouco de nostalgia, porque eu via muito isso quando era menor.” Para outras escolas que ainda não adotaram o sistema, ela tem uma recomendação simples: “Eu acho que vocês devem colocar. É muito boa essa mudança.” Aconselha a pequena.

“A gente tinha que tapar o ouvido”
A experiência também conquistou Enzo de Azevedo, de 9 anos. Para ele, a principal diferença está justamente na intensidade do som. “Gostei. Tem uma musiquinha de infância que eu ouvia no YouTube”, conta. Enzo lembra que, antes da mudança, alguns alunos precisavam proteger os ouvidos quando o sinal tocava. “Quando a gente passava por aqui, com a minha turma, e o sinal tocava, a gente tinha que tapar o ouvido, era muito alto, esse de agora ficou melhor, muito mais legal.” A nova rotina já virou até motivo de diversão. “A gente até dança na sala quando toca o primeiro recreio”, conta o menino.






