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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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Duplipensar: a tirania da contradição consentida

Duplipensar é um conceito que descreve, no romance de George Orwell, 1984, a capacidade que têm os seres humanos de defenderem simultaneamente duas crenças contraditórias e aceitar ambas como verdadeiras. Não se trata apenas de mentir, mas de acreditar na mentira ao mesmo tempo em que sabe que é mentira. É um processo de auto engano, uma mutilação do pensamento lógico e do caráter.
Com base no conceito de Orwell é possível entender o que houve no Congresso Nacional durante a semana, quando um grupo de parlamentares identificado com Jair Bolsonaro tomou, na marra, o comando das duas Casas e outro grupo se insurgiu contra o ato. O argumento usado pelos parlamentares dos dois grupos foi a defesa da democracia, da soberania do país, das prerrogativas do Congresso Nacional e dos interesses do povo. A verdade, no entanto, foi, de um lado, a reação à decisão de um Ministro do STF de impor prisão domiciliar a Jair Bolsonaro, e do outro, o apoio à medida.
A minha percepção é que para um grupo tanto quanto para o outro, dane-se a democracia, a soberania, as prerrogativas do Congresso Nacional e até mesmo os interesses do povo. Viu-se, nos plenários, a representação física e material de uma briga entre Jair Bolsonaro e seus aliados com Ministros do Supremo Tribunal Federal. O resultado é que, para uns, a liberdade e elegibilidade de Jair Bolsonaro é a coisa mais importante do mundo, enquanto para seus adversários, a destruição completa dele e do grupo que ele lidera, é algo que precisa acontecer e rápido. O ódio preside o embate, num nível que autoriza um cidadão de sobrenome Santa Cruz a pregar a execução sumária do ex-presidente com um tiro na nuca. A execução de crucificação estaria mais adequada ao sobrenome do proponente.
Desde 2018, antes mesmo da eleição dele para a Presidência da República, Jair Bolsonaro estranha-se com os ministros do STF, alguns deles ao mesmo tempo ministros do TSE. Em pauta a fragilidade ou não das urnas eletrônicas. E desde o início da briga, Jair Bolsonaro e seus aliados levam a pior, pois os ministros das duas cortes, TSE e STF, contam com o poder e competência para interpretar como queiram a Constituição Federal e a legislação eleitoral e abrir inquéritos, determinar prisões, bloqueios de contas bancárias e outras medidas.
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi chamado à briga, não só pela aliança que tem com Jair Bolsonaro e pela simpatia pelo filho dele, mas porque um ministro do STF, com o desejo de atingir os aliados de Jair Bolsonaro estejam eles onde estiverem, terminou por tomar decisões contra empresas e pessoas sediadas nos Estados Unidos. A confusão cresceu
Resta-nos saber até onde irá essa briga. Quem, com poder de liderança poderá apartá-la? E, em continuando, quando essa luta chegará ao ponto de inflexão em que o pouco de democracia que nos resta será substituída por uma tirania? Sim, pois sabe-se que o cachimbo faz a boca torta e não se pode dispensar os fatos de uma história recente em que um juiz da primeira instância tomou para si poderes em excesso para punir a classe política com o argumento de estar numa luta sem trégua contra a corrupção. Com um pouco mais de boa medida e menos vaidade, ele e os procuradores que se aliaram com ele poderiam ter prestado um serviço de excelência em favor do Brasil. Todos os excessos cometidos hoje pelo Poder Judiciário estão autorizados e sustentados, de certo modo, pelos excessos cometidos pela operação Lava-Jato.
George Orwell, no livro que citei na abertura, constrói um futuro distópico em que o Estado totalitário domina todos os aspectos da vida humana, desde os atos até os pensamentos.No mundo de 1984, o “Grande Irmão” (Big Brother) tudo vê. Não há espaço para a privacidade. As câmeras em forma de telas vigiam os cidadãos o tempo todo, e até mesmo o pensamento é policiado. Surge daí o conceito de “crimideia” (thoughtcrime) — pensar algo contrário ao regime já é crime. É um mundo em que o medo é a base do poder.
Orwell desenhou uma nova língua criada e autorizada pelo Estado. A Novilíngua (Newspeak) é uma das grandes invenções de Orwell. É uma linguagem usada para limitar a capacidade de pensamento crítico. Ao reduzir o vocabulário, o Estado pretende tornar impossível até mesmo pensar em liberdade ou resistência. Aqui, a linguagem deixa de ser ferramenta de expressão para se tornar instrumento de opressão. Por hora, nesse ambiente, estão só Jair Bolsonaro e seus aliados. Tomara que essa loucura fique por aí.
Ao fim e ao cabo, a destruição do indivíduo. Winston Smith, o protagonista do romance, tenta resistir, ama, lê livros proibidos, questiona o regime. A sua trajetória, contudo, mostra que, nesse mundo, a rebelião é inútil. O Estado não apenas derrota os inimigos: ele os reeduca, os reprograma, os transforma em nada. Chega-se ao ponto em que, para o ditador (Grande Irmão) não é suficiente ser obedecido, mas amado, sobretudo.
Em outra obra, “ Por que eu escrevo”, George Orwell diz:”Minha principal motivação é o desejo de tornar a mentira política insuportável”. Se colocarmos a política brasileira nesta pauta será isso possível? Se essa luta entre as cortes e Jair Bolsonaro perdurar mais tempo, chegaremos ao ponto de enterrar as nossas liberdades de vez? É algo para se pensar nos dias em que a próxima eleição se avizinha.

JACKSON VASCONCELLOS

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