Maria Eduarda Maia
Nem a chuva, o frio e o cansaço pararam Delino Tomé. Aos 72 anos, o morador da Barra do Imbuí retorna a Teresópolis depois de concluir a jornada mais desafiadora de seus 55 anos de corrida. Foram cerca de dois meses fora de casa e aproximadamente 2.100 quilômetros entre a cidade onde escolheu viver e João Pessoa, na Paraíba. Mais do que completar o percurso, Delino diz que carregou durante toda a viagem a responsabilidade de representar Teresópolis e as pessoas que acompanharam e incentivaram o projeto. Foi esse sentimento que, segundo ele, também ajudou a mantê-lo na estrada nos momentos em que o corpo pedia para parar. “A sensação foi de dever cumprido. Eu fiz o trabalho social e também levei o nome de Teresópolis. A população de Teresópolis é uma responsabilidade muito grande, então tem que cumprir o trajeto”, disse, em entrevista ao Diário
A chegada a João Pessoa teve, portanto um significado que foi além da distância percorrida. Depois de quase 2.100 quilômetros, Delino conta que a primeira atitude foi agradecer por ter conseguido completar o caminho. “Não vou enganar: teve momento em que eu pensei em desistir, mas não fiz isso porque pensei: ‘Nossa, estou carregando uma responsabilidade enorme, representando Teresópolis e todas as pessoas que estavam acompanhando e incentivando’ “, relatou.

Uma segunda tentativa, outro caminho
A conquista também encerra uma história que havia ficado pelos caminhos da estrada. Em 2025, Delino tentou chegar a João Pessoa, mas precisou interromper a jornada antes do destino. De volta a Teresópolis, retomou os treinos e reorganizou o planejamento para uma nova tentativa. Dessa vez, escolheu outro caminho. “Da outra vez, fiz um trajeto diferente que me levou a Salvador e, depois de lá, eu iria para João Pessoa. Dessa vez fui pela BR-101 direto”, explicou. A estratégia funcionou. Mas, mesmo com o planejamento, a estrada impôs desafios que não estavam sob controle do ultramaratonista.

Chuva, frio e uma noite improvisada na estrada
A chuva foi uma das principais dificuldades enfrentadas durante a jornada. Para tentar proteger os pertences, Delino comprou oito metros de plástico. Ainda assim, conta que boa parte das roupas acabou molhada. Em uma das noites mais difíceis, já exausto e procurando um lugar para dormir, encontrou um ponto de ônibus. Foi ali que precisou improvisar o abrigo. “O vento era tanto que a chuva batia. Naquela noite, mesmo estando de calça, casaco e tudo mais, passei uma ‘friaca’ “, disse.
Desafio social
A aventura até João Pessoa não tinha apenas um objetivo pessoal. Como fez em outros projetos, Delino levou consigo banners com informações de instituições sociais de Teresópolis. A ideia era divulgar o trabalho das entidades e ampliar as possibilidades de arrecadação. “Eu creio que, se as instituições não tiveram uma ajuda tão grande, pelo menos tiveram algo porque foram muito divulgadas. Foi divulgado por mim e pelas pessoas do Nordeste, de Minas Gerais, de Florianópolis e de todos os estados por onde passei”, pontuou.

Possível desistência
Entre tantos quilômetros percorridos, um momento específico ficou marcado e chegou a ser registrado em vídeo. Em meio a um canavial, já exausto, Delino chegou a pensar que não conseguiria continuar. O peso da mochila havia provocado dores no ombro, e ele conta que já estava com dificuldade para carregá-la. “Aquele foi um momento em que, com toda a sinceridade, eu parei e pensei: ‘Aqui eu desisto’ “, relatou. Foi nesse momento de cansaço extremo que Delino diz ter buscado forças na fé para continuar. Segundo o ultramaratonista, depois daquele momento ele conseguiu recuperar as forças e seguir viagem. “Ali saiu o peso do ombro, saiu o peso das costas e das pernas. Eu renovei minhas forças e continuei.”, declarou, emocionado.

“Para mim, não tem preço”
A chegada a João Pessoa representou o fim de uma jornada que, desta vez, não ficou pelo caminho. Para Delino, a sensação de ter conseguido completar o projeto é difícil de traduzir em qualquer outra recompensa. “Minha alegria é grande porque eu realizei. Dessa vez eu ficaria muito triste se não conseguisse, porque já estava com o trajeto programado.”
A corrida, para ele, também é parte de uma história muito mais antiga. Delino conta que desde criança já estava acostumado a percorrer longas distâncias a pé. “Eu vou falar uma coisa, gente: para mim, não tem preço. Pode me oferecer alguma coisa para eu parar que eu não vou parar. Desde criança, já andava quilômetros e quilômetros a pé. Então eu já nasci aventureiro.”
Próxima aventura
Aos 72 anos, depois de superar o maior desafio de sua trajetória e completar uma tentativa que havia sido interrompida no ano anterior, Delino ainda não fala em parar. O próximo projeto, porém, ainda não tem data definida. “Estou pensando em sair daqui de Teresópolis e ir até a fronteira do Uruguai, no Chuí. Esse é o próximo projeto.”, concluiu.
A realização do projeto também contou com o apoio de empresas e profissionais. São eles: Carrapeta, Papelaria Globo, Unisport, Ótica Prazer de Ver, São Cristóvão Cicle, SAF, Chaveiro Mundial, Rede Economia, Bebida Comary, Academia RV Fitness, Dr. Manoel Vida, Dr. Gustavo Alves, Astein, Petit e Ami Clínica Veterinária, Marragavi Móveis Usados, Maia Auto Mecânica, Açougue Tavares, Zabal Bike, Eletro Barra, Mecânica Clinicar, Celeiro Barra e Fisioterapia Dra. Aline Guarilha.




