“Agora que a Lei Seca completou 18 anos, vai poder beber?” Com essa pergunta de supetão, o deputado federal e autor da Lei Seca, Hugo Leal, tem abordado muita gente em 2026. A surpresa inicial desarma o questionado e abre caminho para o parlamentar completar, em tom de brincadeira, com um sorriso no rosto: “É claro que não”. A provocação resume uma mudança cultural produzida pela legislação desde 2008. Beber e dirigir, antes tratado por parte da sociedade como uma conduta tolerável, passou a ser visto como comportamento inaceitável. A percepção aparece em dado divulgado recentemente no livro “Brasil no Espelho”: 95% da população entende que beber e dirigir é um ato desonesto.
Aos 18 anos, a Lei Seca chega à maioridade como uma das políticas públicas mais relevantes para a segurança no trânsito no país. No Rio de Janeiro, onde as ações de fiscalização começaram em 2009, os números ajudam a dimensionar o alcance da medida: quase 5 milhões de motoristas já foram abordados. Desde então, foram realizadas mais de 42,6 mil operações no estado, com mais de 4,5 milhões de testes de etilômetro.
O impacto também aparece nos indicadores de segurança viária. Levantamentos sobre o período apontam redução de pelo menos 40% nos números de acidentes e vítimas. Na comparação entre 2008, antes da consolidação da Lei Seca, e 2025, o Estado do Rio registrou queda de mais de 21% na taxa de mortes no trânsito. Entre os feridos em acidentes, a redução foi ainda mais expressiva: 38,6%. Apesar dos avanços, os dados mais recentes acendem um alerta. Em 17 anos de fiscalização no Rio, foram registradas mais de 360 mil ocorrências envolvendo consumo de álcool ao volante.
Os dados dos últimos anos da Operação Lei Seca indicam uma mudança preocupante no comportamento dos motoristas fluminenses após a pandemia. Entre 2014 e 2019, a alcoolemia foi identificada em 4,97% de 1.988.629 abordagens. Já entre 2022 e abril de 2026, foram registradas 1.365.555 abordagens, com taxa de 10,10% de flagrantes. Em números absolutos, os registros passaram de 98.754 para 137.920 casos, mesmo com queda no total de motoristas abordados. Olhando apenas para o período pós-pandemia, após os percentuais elevados de 2023 e 2024, com 11,37% e 11%, houve queda em 2025, quando a taxa ficou em 8,66%, mas ainda o dobro dos anos pré-pandemia. Os dados parciais de 2026, no entanto, indicam nova elevação: até abril, 9,47% dos motoristas abordados apresentaram alcoolemia.
“A Lei Seca valeu a pena porque já salvou mais de 60 mil vidas, mudou hábitos e deixou claro que beber e dirigir não é um direito individual, é uma ameaça coletiva. Mas os números recentes mostram que não podemos achar que essa mudança está garantida para sempre. Depois da pandemia, parte da população voltou a misturar direção e álcool. Por isso, precisamos renovar a conscientização, reforçar a fiscalização e lembrar todos os dias que a Lei Seca existe para proteger vidas”, afirma Hugo Leal.
O alerta observado no Rio acompanha uma tendência nacional. Em todo o Brasil, desde a entrada em vigor da Lei Seca, em junho de 2008, até maio de 2025, foram registradas mais de 3,2 milhões de infrações relacionadas à combinação entre álcool e direção, segundo levantamento da Secretaria Nacional de Trânsito. Desse total, cerca de 1,18 milhão correspondem a autuações por dirigir sob influência de álcool ou outra substância psicoativa, e aproximadamente 2,1 milhões a recusas ao teste do bafômetro ou a procedimento equivalente. A legislação diferencia as condutas, mas aplica a ambas penalidades administrativas severas, como multa gravíssima multiplicada por dez e suspensão do direito de dirigir por 12 meses. A série histórica nacional mostra o tamanho da transformação desde 2008: a Lei Seca consolidou a tolerância zero, fortaleceu os mecanismos de responsabilização e ajudou a transformar um comportamento antes relativizado em infração grave e amplamente condenada.

Mudança tem ocorrido aos poucos
Ao mesmo tempo, os números recentes mostram que a mudança cultural precisa ser renovada continuamente. Em 2025, as infrações relacionadas à Lei Seca no país chegaram a 452.977 registros. Já em 2026, até abril, foram 160.678 infrações, média de aproximadamente 1.339 por dia, em ritmo superior ao observado no ano anterior.
A próxima etapa, segundo Hugo Leal, exige campanhas educativas mais frequentes, comunicação direta com os grupos de maior risco, ações em bares, eventos, escolas, empresas e universidades, além de operações orientadas por dados, especialmente em fins de semana, madrugadas, feriados, Carnaval e festas de fim de ano. Para o deputado, os 18 anos da Lei Seca devem ser vistos como um marco de sucesso, mas não como ponto de chegada. “A fiscalização precisa ser firme, mas a consciência precisa vir antes da blitz. O ideal é que o motorista não beba e dirija porque sabe que pode matar, não apenas porque teme ser multado”, ressalta Hugo Leal.






