Marcello Medeiros
Imagine as seguintes situações: um prédio desaba por conta de um problema estrutural e a solução é derrubar todos outros os prédios da cidade; um cachorro morde alguém em via pública e para resolver isso a recomendação é exterminar qualquer cão visto nas calçadas; ou ainda, uma pessoa sem coisa melhor a fazer utiliza o celular para postar uma baboseira na internet, gerando a proibição de importante tecnologia para todos os outros internautas. Parece exagerado, mas é assim que têm se portado algumas pessoas após uma árvore tombar na Reta, depois de uma forte ventania, apontando como solução ‘derrubar todas do Canteiro Central para evitar outros riscos de acidente’. E, mais do que ser desproporcional, desnecessário e desinteligente, tal ideia poderia transformar a região em uma verdadeira ilha de calor, aumentando absurdamente a temperatura na Várzea mesmo fora da estação mais quente do ano. Isso é o que mostram estudos científicos diversos, usados inclusive por grandes cidades para ‘justificar’ o investimento em arborização urbana como forma de amenizar os efeitos do calor.


Com ciclofaixa ou sem a passagem de ciclistas e caminhantes, as árvores devem ser cuidadas, podadas e mantidas. Elas fazem sombra, abrigam espécies animais e deixam mais bonito o Centro. Foto: Marcello Medeiros / O Diário
Um estudo inédito publicado em maio passado na revista científica Nature Communications, liderado pela organização ambiental The Nature Conservancy (TNC), revelou que as árvores urbanas são responsáveis por reduzir quase metade do efeito das ilhas de calor nas cidades. Segundo a pesquisa, sem a cobertura arbórea, as temperaturas nas áreas urbanas seriam aproximadamente duas vezes mais altas do que as registradas atualmente. De acordo com Johnny Quispe, diretor de Programas Urbanos da TNC, a distribuição desigual de árvores entre os bairros contribui para diferenças significativas de temperatura dentro de uma mesma cidade. “É cada vez mais comum vermos diferenças gritantes de temperatura entre bairros da mesma cidade, causadas pela quantidade desigual de cobertura arbórea”, afirmou. Quispe destaca ainda que os impactos das ondas de calor recaem de forma mais intensa sobre as populações em situação de maior vulnerabilidade. “Investir em arborização urbana resulta em ruas mais frescas, ar mais limpo e comunidades mais resilientes para todos”, ressaltou. Vale frisar que esse é apenas um dos muitos estudos nesse sentido disponibilizados na internet, então basta uma pesquisa básica para evitar comentar ou compartilhar informações sem nenhum embasamento.


Outros benefícios
Você costuma reparar a beleza existente no canteiro que divide as pistas das avenidas Lúcio Meira e Feliciano Sodré? Talvez, na correria para cumprir os compromissos diários, nem tanto. Mas basta parar alguns minutos em qualquer trecho das principais vias de Teresópolis para constatar como é bonito o ‘corredor verde’ formado por diferentes espécies de árvores, da antiga Casa de Saúde ao encontro com a Avenida Alberto Torres. Ao longo dos aproximadamente cinco quilômetros das avenidas existem diversas espécies de árvores, desde pequenas leguminosas até os frondosos flamboyants, sem esquecer os brasileiríssimos Ipês amarelos. E, muito mais do que a beleza natural, elas são de extrema importância para melhorar a qualidade de vida do teresopolitano. Contribuem para melhorar a qualidade do ar, reduzir a propagação do som, e diminuem, em cerca de 10%, o nível de material particulado liberado pela poluição, além é lógico, de fazerem sombra e diminuírem a incidência do calor: as plantas fazem a evapotranspiração, a liberação de vapor d’água, causando o resfriamento do ar. Outro ponto que muita gente ignora na correria diária é a quantidade de espécies animais que vivem nessas árvores, entre elas muitas que as utilizam como ‘trampolim ecológico’ entre os fragmentos florestais e parque que cercam o município.


Ideia besta não é novidade
Hoje, com a IA, é fácil criar uma avenida sem nenhuma árvore, com uma aparente bonita ciclofaixa. Difícil é defender com base científica que derrubar dezenas de exemplares arbóreos é realmente bom para alguém. Até um pinguim saberia que essa não é uma boa ideia. Mas, com inteligência artificial ou desinteligência natural, esse tipo de proposta ocorre de tempos em tempos. Em 2011, um secretário do alto escalão do então governo Jorge Mario, teve a ‘brilhante ideia’ de derrubar todas as árvores para criar mais uma pista de veículos. Na ocasião, O Diário ouviu o Biólogo e Professor Carlos Alfredo Franco, o Alfredinho, sobre tamanho absurdo. Além de pontuar tecnicamente a importância do Canteiro Central, ele atentou para o lado poético e humano desse espaço: “Quando a pessoa está nesse trânsito cada vez mais confuso de Teresópolis, nada melhor do que contemplar essa beleza”.






