Marcello Medeiros
“Te pago um café, te dou uma ajuda para ir lá abrir uns túmulos e filmar. Mas tem que aparecer os ossos ou pelo menos o caixão”. Mensagens com esse tipo de conteúdo têm circulado em grupos de WhatsApp de Teresópolis, indicando frequentes pedidos, que teriam interesses criminosos e políticos, de ataques ao principal cemitério do município, o Carlinda Berlim, mais conhecido como Caingá. Há cerca de 10 dias, funcionários da secretaria municipal de Serviços Públicos lotados nesse campo santo têm percebido o sumiço de tampas de gavetas e graves danos em laterais de sepulturas, situações que, ao que tudo indica, foram provocadas com a utilização de ferramentas. O caso foi denunciado na 110ª Delegacia de Polícia, que nesta quinta-feira (05) enviou uma equipe da Polícia Regional Técnico Científica (PRPTC) à quadra atacada, a 34, uma das últimas e consequentemente mais afastada da administração. A perícia confirmou a utilização de algum tipo de instrumento para a remoção das tampas ou danos às estruturas.

O Diário conversou com o secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Davi Serafim, que disse ter tido acesso aos áudios indicando os ataques ao cemitério do Caingá. As gravações também farão parte do inquérito que será aberto para apurar os crimes de violação de sepultura e vilipêndio de cadáver. “O cemitério é muito grande e aberto, a gente não tem acesso a todas as quadras e o sistema de monitoramento ainda é precário, mas vamos melhorar. Mas como os coveiros rodam as quadras todo dia, começaram a perceber tampas abertas. Teve um caso que consertamos em um dia e o outro estava fora de novo. De repente começaram a circular vídeos nas redes sociais mostrando isso, expondo caixões. Fizemos o registro dos crimes, de vandalismo e violação de túmulo. A perícia mostrou que usaram ferramentas para abrir esses túmulos, ou seja, foi aberto propositalmente. Paralelo a isso tivemos acesso a áudios de uma pessoa oferecendo uma situação financeira, um ‘café’, para quem fosse lá abrir túmulos, até pedindo que tinha que mostrar ossos na imagem. Vimos essa malícia e fizemos o registro na delegacia”, relatou Serafim.
Os crimes de violação de sepultura (Artigo 210 do Código Penal, 1-3 anos de reclusão) e vilipêndio a cadáver (Art. 212, 1-3 anos de detenção) no Brasil punem o desrespeito aos mortos, incluindo danificar túmulos, profanar, ocultar ou vilipendiar corpos e cinzas. A legislação visa proteger a dignidade humana e o sentimento familiar.



Perícia indicou utilização de ferramentas para danificar laterais de túmulos – Foto: Plantão – O Diário
Câmara também denunciou
Na sessão ordinária da Câmara Municipal desta quinta-feira (05), o vereador Marcos Rangel (PP) denunciou a situação e reforçou a ação das chamadas ‘milícias digitais eleitoreiras em Teresópolis’, tema que já tem sido pauta da casa nos últimos dias. “Ouvimos os áudios com uma pessoa pedindo as fotos, falando que tem que ter ossada, falando que vai dar café… Vimos as fotos, tem algumas coisas que é desleixo no cemitério mesmo, mas para a maioria, basta olhar corretamente, com cuidado, para perceber que o que ocorreu não foi falta de manutenção, que foi feito propositalmente, vandalismo. Também fui conversar com o secretário para saber o que está ocorrendo e soube que já foi feito esse registro de ocorrência, incluindo ainda os áudios que falam que tem que mostrar ossada, pedaço de corpo…. Só que quem faz isso esquece que pode ser identificado, que isso é um crime grave inclusive”, pontuou o edil.
BOXE
CRIMES QUE ESTÃO SENDO INVESTIGADOS
Violação de Sepultura (Art. 210)
- Configura-se ao violar ou profanar sepultura ou urna funerária, com pena de reclusão de 1 a 3 anos e multa.
Vilipêndio a Cadáver (Art. 212)
- Consiste em ultrajar, desprezar ou profanar cadáver ou cinzas. A pena é de detenção de 1 a 3 anos e multa.






