A libertação não é uma condição fácil de ser alcançada. Isso não se refere apenas às amarras exteriores que se apoderam do indivíduo, ao tamanho dos grilhões ou mesmo ao minúsculo espaço prisional em que foi encarcerado, mas, sobretudo, ao estado de sua consciência. A liberdade não é, simplesmente, um fato externo, mas um estado interior.
Quando William Shakespeare, no Ato 2, Cena 2 de Hamlet, escreve: “Posso estar recluso em uma casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”, pode parecer que o personagem esteja tomado de megalomania. Contudo, essa interpretação só ocorreria aos ouvidos entupidos de pessimismo ou àqueles que veem na frase uma desconexão com a realidade circundante. Entretanto, para os que carecem de liberdade, é exatamente nessa percepção que ela se inicia.
Na consciência liberta nasce a esperança dos passos seguintes. Só conseguimos colocar o pé fora do barco quando a consciência se liberta dos condicionamentos e dos discursos que esfacelam a alma, daqueles que, incapazes de remover as próprias vendas, querem tornar cegos os que um dia viram.
Ver não é a mera ação dos olhos que, por sua vez, funcionam como uma máquina fotográfica, na qual a luz refletida pelos objetos atravessa a córnea, a pupila e o cristalino, chegando à retina, onde células especializadas codificam a imagem e o nervo óptico leva o estímulo ao cérebro. Ver é uma tradução cerebral; não apenas dos estímulos luminosos que chegam aos olhos, mas de uma mentalidade que, transformada por instâncias que lhe irrigam colírios de uma existência não condicionada, ajusta as perspectivas externas.
Portanto, não vemos as coisas como são, mas como nós somos. Impregnados pelos condicionamentos do meio, travamos uma batalha interior contra tudo aquilo que ainda nos quer aprisionar. Como disse certo pensador: “A atual geração se parece com os judeus que Moisés conduzia pelo deserto. Não só tem de conquistar um novo mundo, mas tem de perecer para dar lugar a homens e mulheres que estejam à altura desse novo mundo”. Quantos ainda perecerão para que uma nova recepção de mundo seja absorvida? Enquanto não houver a percepção de que somos pessoas não realizadas enquanto humanidade e que vivemos em uma sociedade alienada e alienante, não ultrapassaremos o Egito que habita e escraviza a mente.
O horizonte da Terra Prometida, da esperança de um novo tempo e de uma nova história, requer novos olhares, mentes transformadas e uma marcha que resolutamente siga em frente, apesar dos “gigantes da terra”. Um êxodo constante e perseverante, animado pela promessa de uma terra que está por vir, só se torna possível quando as mãos que hoje afundam as esperanças alheias se tornarem mãos que constroem as bases da terra que se espera.
Constantemente, levantar-se-ão os condicionados, dependentes de estruturas viciadas, aqueles que dizem: “Nunca será diferente, pois sempre fizemos assim, sempre vivemos assim”. A esperança de um mundo melhor, de um tempo de vitalismo, nunca foi uma questão meramente corpórea; trata-se, essencialmente, da libertação da consciência.


