Um pedido de demissão carrega, em si, uma forma de ruptura. É o ato de dizermos não a algo que, por algum motivo, não desejamos mais. São diversas as causas para essa decisão, e muitos de nós já tivemos a oportunidade não somente de pedir demissão, mas de presenciar pessoas próximas fazendo o mesmo.
“Dizer não é dizer sim”, já dizia parte da letra de uma música cantada por Paula Toller. Esse sim pode representar uma nova oportunidade profissional, uma mera desistência daquilo que só nos traz desprazer e adoecimento, ou a busca legítima por felicidade e satisfação profissional.
Falar em felicidade é algo complexo demais, talvez ambíguo. É difícil encontrar alguém que, ao ser questionado sobre o sentido da vida, não responda que ele é ser feliz. No entanto, o cenário muda caso a pergunta seguinte seja: o que é a felicidade? E, de forma especial, o que é ser feliz no trabalho?
Mesmo que a felicidade no trabalho se manifeste como reconhecimento, salário, status, cargo ou até mesmo uma missão de vida, independentemente de sua forma, ela sempre e inevitavelmente se relaciona com o desejo. A questão é que raramente temos plena consciência disso, pois trata-se de um impulso inconsciente que nos acompanha desde sempre.
Como todo desejo, um dia ele se tornará insuficiente, exigindo ser alimentado mais e mais. Sobre isso, recorrendo a Freud e seus amigos, compreendemos que o desejo é um movimento da nossa energia psíquica em direção a algo que não conseguimos explicar conscientemente, tendo por origem uma falta. O trabalho surge, portanto, como uma realidade na qual também buscamos realizar nossos anseios. Freud, inclusive, aponta que o mal-estar da nossa civilização é resultado justamente do conflito entre os nossos desejos e uma realidade social sempre limitadora, permeada por outros milhões de sujeitos desejantes.
Para muitos, portanto, pedir demissão de um emprego é simplesmente dizer não a um espaço onde o desejo não encontra respostas para as suas faltas. É romper com ambientes onde aliviar o desprazer se tornou impossível, tendo em vista que tanto a missão pessoal quanto o desejo íntimo já não encontram eco. Mais do que falar em valores pessoais, abandonar um emprego é responder a uma premissa tanto afirmativa quanto negativa: eu ainda não sei exatamente o que quero, mas aqui posso afirmar que não desejo mais ficar.
