O Pós-moderno traz consigo um enfraquecimento das estruturas monolíticas — entendidas como fundamentos irrevogáveis que deram origem ao velho e conhecido fundamentalismo. Para entendermos melhor esse momento, vamos “voltar a fita” (metáfora que já diz muito sobre esse tempo).
A Modernidade orgulhou-se de ser fundada nas bases “sólidas” da Razão e, consequentemente, abandonou Deus como suma expressão de sua autonomia e autossuficiência. Deus, céu, inferno, anjos e tantos outros conceitos metafísicos foram encarados como uma herança da infantilidade humana. “Agora somos crescidos!”, ovacionavam em alto e bom som.
Entretanto, a própria Razão provou ser mais um item na lista de supermercado da Modernidade metafísica. Em outras palavras: descobrimos um santo para cobrir o outro, sem nos darmos ao trabalho de lavar a roupa partilhada — de modo que o cheiro e o suor do primeiro passaram para o segundo. Desconstrói-se para construir diferente, mas, no final, tudo permanece igual.
A essa altura, cabe a pergunta: onde está a utopia?
A utopia morava na casa da Modernidade e não foi bem-vinda na residência atual: a Pós-modernidade. A hóspede indesejada passou a ser encarada com vestes fundamentalistas — ora de tons marxistas, outrora capitalistas ou religiosos —, tachada como o tipo de visita que não sabe combinar roupas.
Todavia, por definição, a utopia tem a prerrogativa de habitar a casa que bem entender, pois não se submete a formalidades nem traz embutido o espírito de finesse. Ela não estava à venda no armazém do Sr. Adam Smith, nem era bibelô na escrivaninha do Sr. Karl Marx. Nunca foi, nem é, propriedade de ninguém.
A palavra utopia significa literalmente “não-lugar” ou “lugar que não existe”. No vocabulário popular, virou termo pejorativo para classificar quem vive com a cabeça nas nuvens: “Que sujeito utópico!”. Contudo, a verdadeira ideia de não-lugar não reflete um idealismo ingênuo ou uma fuga da realidade, mas sim a ousadia de propor chegar aonde ninguém julga possível ou onde poucos se dispõem a pagar o preço de ir.
Um exemplo emblemático dessa caminhada em direção ao “lugar inexistente” foi Henry Ford, a quem se atribui a célebre frase: “Se eu perguntasse aos meus clientes o que eles queriam, teriam dito: ‘um cavalo mais rápido’”. Ford não entregou o óbvio esperado, mas descortinou uma possibilidade até então inimaginável. O lugar chamado “inexistente” passa a se tornar real quando alguém decide abrir a estrada até ele. Portanto, aos covardes resta o realismo paralisante de suas fugas; aos corajosos, as enxadas que abrirão o caminho rumo ao ideal.
