Não é preciso ser profissional da área de saúde para perceber como avançam, dia após dia, os diagnósticos de transtornos mentais ou questões que envolvem diretamente o tema. As notícias de pessoas envolvidas em sofrimento que recorrem a consultórios e deixam as salas com receitas controladas em mãos reforçam as estatísticas de que parecemos um país doente, fortemente acometido por depressão e ansiedade. As farmácias viraram o point do alívio imediato, onde muitas vezes se prefere a promessa da pílula à profundidade da terapia pela palavra.
Para se ter uma ideia, o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que é um guia de orientação para os diagnósticos triplicou, em 70 anos, as classificações de termos destinados a definições ligadas ao tema. Vale lembrar que o termo “espectro” surgiu há pouco tempo.
A crítica a este cenário não é definitiva e parte de uma experiência pessoal, que não deseja esgotar o tema em um artigo. Porém a realidade dos transtornos mentais não pode passar batida à velocidade com que o mundo tem girado nos últimos 120, 140 anos. As revoluções sociais, industriais e tecnológicas têm exigido da humanidade uma reconfiguração de uma biologia construída durante milhões de anos. A velocidade da tecnologia e das exigências do mundo do trabalho não acompanham a velocidade da nossa química interna. De repente 24 horas não cabem mais na vida de uma pessoa, e muitos aqui irão concordar com isso.
Também o excesso de estímulos oriundos dos meios de comunicação em massa e a realidade das redes sociais, que mercantilizam até o silêncio, estão criando um exército de homens e mulheres, jovens e velhos, insatisfeitos com a falta. Não há desejo que não mereça ser saciado, não há no outro o que eu não possa ter ou fazer. Somos sempre convencidos de que precisamos e podemos mais e mais.
Apesar de sermos um país doente, há ainda baixíssimo índice de busca por auxílio psicoterapêutico, e isso diz muito sobre nosso tempo. Há vergonha e preconceito quando o tema é saúde mental. Trata-se um psicólogo ou psiquiatra como “médicos de maluco”, e abrir a boca para falar virou sinônimo de fraqueza. É mais fácil aceitar uma caixa com tarja vermelha, ora preta. Não podemos perder tempo elaborando o sintoma, pois temos muitas coisas para fazer, senão ficaremos para trás.
A realidade das doenças psíquicas existe, e a medicação é extremamente necessária. Porém nem tudo é transtorno. Em certos casos não ainda determinados, a medicação ajuda a estabilizar um quadro, de forma que a pessoa consiga elaborar sua questão emocional junto a psicoterapeuta. As farmácias não deveriam ser a nossa principal fonte de satisfação das dores da alma, que sem elaboração jamais poderão ser tratadas de forma adequada, inclusive por remédios.
