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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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Use a memória. Pergunte ao vizinho

Só há um jeito de evitar o pior numa eleição: usar a memória.
Deus concedeu a memória aos seres vivos como instrumento de preservação e sobrevivência. É ela que permite reconhecer o perigo, guardar experiências e evitar a repetição de situações que produziram sofrimento e dor. Ela é a origem dos medos. Quem já tomou choque ao colocar a mão num fio desencapado sabe que não deve fazer isso.
É por isso que a sabedoria popular diz que “gato escaldado tem medo de água fria”.
Em nós, seres humanos a memória é sofisticada e nos faz ir além da lembrança sobre algo que aconteceu. Nós somos capazes de relacionar fatos, comparar épocas, identificar causas e consequências e, sobretudo, aprender com a experiência. E temos, aliada à memória, a capacidade de aprender com os erros dos outros para evitar cometer os mesmos erros.
É essa capacidade que transforma a memória em conhecimento.
Na política, isso é particularmente importante. A eleição é sempre uma escolha sobre o futuro, mas essa escolha não deveria ser feita sem uma consulta ao passado, porque os candidatos prometem e os governos realizam — ou deixam de realizar. Discursos anunciam intenções; a história registra resultados.
Por isso, antes de decidir o voto, a pergunta mais importante não seja apenas “o que estão prometendo?”, mas também “o que aconteceu quando tiveram a oportunidade de governar?”
Memória política não é nostalgia nem vingança. É informação. E nada é mais útil para decidir certo do que ter as informações corretas. Significa recordar crises, decisões difíceis, erros, acertos e as consequências.
Um dos maiores problemas das campanhas eleitorais modernas é a tentativa de apagarem a memória do povo pela velocidade das redes sociais que estimula uma espécie de presente permanente.
O assunto de ontem desaparece diante do assunto de hoje. Uma declaração substitui outra. Um vídeo apaga o anterior. A indignação dura algumas horas e logo encontra um novo objeto.
E quem esquece fica mais vulnerável à propaganda.
A campanha eleitoral trabalha naturalmente com esperança. Todo candidato procura convencer o eleitor de que amanhã será melhor. Isso faz parte da democracia. O problema começa quando a promessa de futuro exige que o eleitor apague o passado. É aí que a memória funciona como defesa.
Diante de uma promessa, procure o histórico do candidato. Diante de uma afirmação, confronte-a com os fatos. Diante da tentativa de reconstruir uma biografia política, lembre-se do que efetivamente aconteceu. E, principalmente, compare o discurso de hoje com as decisões tomadas ontem.
Há uma diferença enorme entre lembrar para repetir e lembrar para aprender.
O voto é uma aposta. Ninguém conhece inteiramente o governo que virá. Nenhuma pesquisa, programa eleitoral ou discurso consegue eliminar essa incerteza, mas existe uma maneira de diminuir o risco: olhar para trás antes de caminhar para a frente.
Na vida fazemos isso o tempo inteiro. Escolhemos pessoas, empresas, profissionais e caminhos levando em conta nossas experiências anteriores. Seria estranho abandonar exatamente esse mecanismo quando tomamos uma das decisões coletivas mais importantes de uma democracia.
Por isso, quando chegar a eleição, ouça os candidatos. Leia as propostas. Examine os argumentos. Desconfie das simplificações. E depois faça algo ainda mais importante: lembre-se. Porque o futuro ainda é uma promessa. O passado, não.

Jackson Vasconcelos

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