Maria Eduarda Maia
Um novo caso de agressão envolvendo um estudante em uma escola veio à tona em Teresópolis. Desta vez, a vítima é um adolescente de 14 anos, portador de Transtorno do Espectro Autista (TEA), com grau de suporte 2, matriculado em uma unidade da rede municipal de ensino. De acordo com a denúncia apresentada à 110ª Delegacia de Polícia, o episódio teria acontecido no final de agosto e envolve o cuidador de outra criança matriculada na escola. O caso veio à tona poucos dias após outra denúncia de agressão envolvendo um adolescente de 17 anos, portador de uma deficiência intelectual, que foi agredido por um colega dentro de uma escola da rede estadual de Teresópolis.
Segundo o registro policial, após retornar para casa naquele dia, o jovem estaria bastante agitado. A responsável teria recebido uma mensagem da unidade de ensino informando que o cuidador que acompanhava o estudante havia sido desligado. Em seguida, o adolescente contou à mãe que teria sido agredido pelo cuidador de outra criança após uma situação ocorrida no refeitório. “O jovem estaria agitado e fazendo barulho no local quando o cuidador teria pedido que ele parasse. Diante da negativa, o profissional teria segurado o braço do estudante. O adolescente então teria se levantado e desafiado o cuidador, que o teria empurrado”, relato a ocorrência.
Depois de retornar para sua mesa, o adolescente teria sido atingido com uma cusparada no rosto e, na sequência, recebido um soco no braço. O registro aponta ainda que duas funcionárias da unidade precisaram intervir para impedir que o cuidador prosseguisse com as agressões. Durante o episódio, o profissional teria feito ameaças de novas agressões físicas contra o adolescente caso ele continuasse com o comportamento.
A responsável também informou à Polícia Civil que outro cuidador, que acompanhava seu filho, teria presenciado o episódio, mas não teria interferido para impedir as agressões. No dia seguinte da situação, a responsável compareceu à escola após ser chamada pela instituição. Na ocasião, a direção teria confirmado à mãe o desligamento do cuidador que acompanhava seu filho e do profissional apontado como autor das agressões.
Mãe fala sobre a situação
Em um vídeo publicado nas redes sociais, a mãe da vítima falou sobre o episódio e afirmou que o caso provocou preocupação e indignação. Ela também relatou que não seria a primeira situação enfrentada pelo filho no ambiente escolar. “Meu filho é uma criança que ia para a escola com muito amor e muita dificuldade, porque ele já passou por tantas coisas e assustadoramente não é a primeira vez que meu filho sofre em ambiente escolar”, declarou.
Sobre o que ouviu do filho após o episódio, a mãe afirmou: “O meu filho foi coagido, agredido, ameaçado e humilhado dentro de um ambiente no qual eu acreditava que ele estava sendo incluído, protegido, guardado”. A responsável também questionou a segurança oferecida aos estudantes dentro das escolas: “Ninguém merece apanhar, sofrer algum tipo de lesão, seja ela física ou psicológica, dentro de um ambiente que a mãe sai e acredita que seu filho está seguro”, afirmou.
Ao final do vídeo, a mãe dez ainda um apelo diante da situação: “Até quando as nossas crianças vão ser agredidas dentro de um ambiente escolar no qual a mãe confiava, no qual a mãe achava que era seguro, que era acolhedor e isso acontece? Até quando? Eu digo chega!”.

O que diz o município
O Diário procurou a secretaria municipal de Educação de Teresópolis em busca de um posicionamento sobre o caso. Em nota, a pasta informou que, “no mesmo dia do ocorrido, a escola tomou todas as providências necessárias”, e que os dois cuidadores envolvidos na situação foram desligados da SME. Ainda segundo a Secretaria, a unidade escolar encaminhou todo o relato do ocorrido à pasta, que também recebeu a mãe do estudante e o advogado da família em uma reunião. “A Secretaria Municipal de Educação colocou-se à disposição para prestar todo o suporte necessário”, informou.
A SME afirmou ainda que “a Secretaria e a unidade de ensino estão à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos solicitados”. De acordo com a pasta, o cuidador que acompanhava a criança já foi substituído “por um profissional indicado pela família”.
Ao final da nota, a Secretaria Municipal de Educação afirmou que “lamenta o ocorrido e reafirma total solidariedade ao estudante e aos seus familiares”. A pasta também declarou repúdio “a qualquer tipo de violência, destacando o compromisso com o treinamento contínuo das equipes que atuam nas unidades de ensino da rede municipal, com o objetivo de garantir que as escolas permaneçam territórios seguros de aprendizado e afeto”.

Conselho Tutelar
O Diário também ouviu o Conselho Tutelar de Teresópolis. Em nota, o CT01 ressaltou que atua na garantia dos direitos da criança e do adolescente e que não é de sua competência realizar investigação criminal, cabendo às autoridades policiais a apuração de eventual prática criminosa.
Autistas Brasil
Em posicionamento sobre situações de violência envolvendo pessoas autistas no ambiente escolar, a Autistas Brasil destaca que episódios desse tipo evidenciam a vulnerabilidade ainda existente, inclusive em espaços que deveriam oferecer acolhimento e proteção. Para a entidade, esses casos reforçam a necessidade de preparo adequado dos profissionais, protocolos claros e medidas de prevenção. “Quando uma criança autista é agredida dentro da escola, estamos diante de uma falha grave de proteção. A escola precisa ser um espaço seguro, preparado para acolher e garantir direitos, não um ambiente onde a violência acontece”, afirma Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil. A entidade também defende uma mudança de cultura para combater o capacitismo e garantir que a inclusão seja efetivamente assegurada no ambiente escolar.




