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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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Já não existem redes sociais

As redes sociais surgiram como espaços de conectividade, reencontro e divisão de interesses afins. Quem viveu a época do Orkut lembra bem da sensação de achar sua “tribo” em comunidades, reencontrar velhos amigos, parentes, e ainda trocar ideias sem grandes pretensões, apesar de servir também para palcos de grandes discussões. Com o passar dos anos, as coisas foram tomando outros rumos. O Instagram, por exemplo, deixou de ser um simples mural de fotos para abocanhar vídeos e pequenos textos. Só que, junto com a evolução técnica, veio uma sutil perda de espontaneidade: aos poucos, deixamos de ser naturais para nos tornarmos “instagramáveis”. A plataforma virou um palco de conquistas, onde a comparação, a inveja e a frustração ganharam terreno.

Estar conectado, aos poucos, equivalia a estar andando na rua. Se antes buscávamos fuga na internet, em sites, grupos de discussão ou álbuns de fotos, hoje a regra é buscar fuga na vida real, no chão da existência. E o ambiente virtual assimilou de tanta forma a vida física, que a calçada digital é repleta também de negócios, anúncios, parcerias.

Uma pergunta que li certa vez me pegou em cheio: “Você faria o que faz se não pudesse postar?” Essa provocação expõe a dinâmica que se instalou. Vimos a transição dos influenciadores para os criadores de conteúdo e, finalmente, dos criadores para os vendedores. Hoje, até os conteúdos genuinamente bons vêm embalados em algum tipo de merchandising ou acompanhados por um cupom de desconto. As plataformas deixaram de ser praças digitais de convivência e se transformaram em um marketplace em tempo integral. A própria propaganda virou o conteúdo.

Essa dinâmica nos condiciona a querer coisas por querer, em um ciclo contínuo de distração e dopamina barata. A psicologia talvez explique essa necessidade constante de estímulo e recompensa imediata, mas o fato é que fomos sutilmente treinados a consumir passivamente enquanto buscávamos apenas entretenimento ou informação.

A velocidade dessa transformação em cerca de vinte anos é impressionante. No início da internet, se você queria algo, precisava saber o nome, caçar o site certo e pesquisar. Depois, o Google facilitou a busca, os algoritmos passaram a nos perseguir pela tela e a inteligência artificial aprendeu a listar benefícios e recomendar lojas. Hoje, o consumo é direto: enquanto você assiste a um criador convincente e descolado falando de um assunto que você gosta, surge um botão no canto do vídeo te levando direto à compra.

Antes, lidar com um desejo (ou mera necessidade) exigia tempo e paciência. A gente precisava se interessar por algo, ver o artista preferido usando, bater perna nas ruas da cidade, esperar a mercadoria um dia chegar para só então ter contato com o produto e validar se compensava a escolha. Nos tempos atuais, a oferta é empurrada para a nossa frente no meio de um post sobre nossos hobbies, sem que ao menos tivéssemos a intenção prévia de comprar.

Quantas mudanças profundas aconteceram sob os nossos olhos, sem que nos déssemos conta de quão pouco tempo se passou. A verdade é que as redes sociais, como conhecemos no início, acabaram. O que sobrou no lugar foi uma imensa vitrine interativa onde a convivência virou mero pano de fundo.

Eustáquio Pereira

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