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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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A bolha da meritocracia do bem estar

“Não tenha medo de trocar de emprego, você merece um local saudável e que promova bem estar”, ou ainda: “é barato garantir a cota de proteína diária, você só precisa de organização”, e mais: “com apenas cem reais você começa a investir”. Este é um discurso muito forte e bem difundido nas redes sociais, que trata de pontos que, na medida do possível, passam pela cabeça de qualquer cidadão comum. O discurso tem sentido e vem ao encontro de exigências básicas de toda pessoa: ter paz e tranquilidade para realizar seu trabalho com excelência, promover saúde e garantir um futuro sem sustos. O que vejo no discurso, e aqui tentarei trazer uma reflexão, e não uma crítica, é que este serve tão somente para uma parcela muito pequena dos trabalhadores, tendo em vista a nossa realidade social de mobilidade (urbana e de classe).
A realidade do trabalhador brasileiro já é carregada de estatísticas que confirmam que o discurso pertence a uma bolha, a um número muito restrito de pessoas. Ocorre que com a internet os discursos ganham ampla repercussão, e parcela considerável dos influenciadores conseguem convencer brasileiros e brasileiras médios de que é possível trocar de emprego, fazer dieta e investir para o futuro de forma simples, fácil, sem sacrifícios e com música de fundo. É como se a vida fosse uma cena de filme com uma balada soft ao fundo.
Enfim, privilégios que são para poucos. Para muitos, ou a maioria esmagadora, trata-se impraticável praticar os três, diria que até todos eles. A realidade do trânsito nas grandes cidades, escalas de trabalho exaustivas, pouco acesso a formação técnica e profissional, reserva financeira, tudo isso influencia no projeto de pessoas “normais”, assim como eu e você, que por conta da larga exposição de casos (nem sempre comprovados) de sucesso, nos sentimos obrigados e pressionados a, também, obter esse sucesso. Esta obrigação ora nos dá a sensação de imortalidade, e de que somos capazes de tudo, para ao final trazer sofrimento e frustração.
A reflexão que fica sobre este tema, que duraria certamente uma página inteira, é a de que necessitamos, cada vez mais, reforçar o nosso discernimento, tanto sobre as nossas possibilidades reais, quanto a de outros, ao julga-los por bem sucedidos ou iludidos. “Todos temos as mesmas vinte e quatro horas” só vale quando locutor e ouvinte estão na mesma prateleira.

Eustáquio Pereira

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