Escrever ou emitir uma opinião já foi um convite para o diálogo, e eu cresci lendo jornais e revistas que me ensinavam isto. Hoje, parece ser apenas um gatilho para a exaustão. Quem gosta do ofício da escrita e da reflexão tem se sentido cada vez mais deslocado no mundo. E o motivo não é a falta de público, mas uma certa falência da interpretação. A internet nos transformou em uma sociedade que não lê para entender o ponto central de uma conversa; lê-se apenas para encontrar uma brecha, uma falha, um motivo para rebater.
Outro dia, vi uma moça gravar um vídeo simples na prateleira de um supermercado. Ela segurava um refrigerante (que não mencionava ser “zero”) e mostrava, de forma objetiva, que a bebida não tinha calorias. Era apenas isso: um dado numérico, até mesmo uma surpresa pra ela. A caixa de comentários, no entanto, virou um tribunal. Uma enxurrada de pessoas a atacava violentamente, argumentando que a bebida “não era saudável”, que tinha conservantes, que fazia mal.
Ela foi obrigada a gravar um segundo vídeo para explicar o óbvio: ela não estava recomendando um estilo de vida, não estava falando de saúde. Ela estava falando de calorias. Mas a nuance morreu.
Esse fenômeno se repete em todos os cantos. Alguém publica que a estatística mostra que a altura média do europeu é maior que a do oriental. Imediatamente, surge alguém nos comentários para gritar: “Mentira! Eu conheço um japonês que tem dois metros de altura!”.
A incapacidade de compreender o que é uma estatística, ou a diferença entre uma regra geral e uma exceção anedótica, escancara uma realidade amarga. Não se trata apenas de analfabetismo funcional. Trata-se da necessidade doentia de discordar.
Tudo precisa ser absolutizado. Se você não cobriu todas as variáveis possíveis do universo em uma frase de duas linhas, você está errado. A comunicação virou um campo minado onde a exceção é usada como arma para destruir a regra, e onde o contexto não importa mais.
Diante disso, a pergunta que martela a cabeça de quem ainda tenta propor ideias é inevitável: compensa opinar hoje em dia?
Se a nossa mensagem será tirada de contexto e usada para alimentar a vaidade de quem só quer “desconstruir” o outro para ganhar likes, talvez o silêncio pareça o caminho mais seguro. É desanimador perceber que a vontade de ter razão engoliu a vontade de compreender o outro.
Mas a verdade é que abdicar da palavra é entregar o mundo aos gritões. Continuamos escrevendo, não para os que buscam exceções ou para os que tropeçam na própria interpretação. Escrevemos para aquele leitor silencioso que ainda sabe saborear uma ideia, que entende o contexto e que, no meio desse caos digital, ainda sabe a diferença entre um debate e um linchamento de ego.


