O Brasil assistiu a um fato inédito: a rejeição, pelo Senado Federal, de uma indicação presidencial para o Supremo Tribunal Federal. Na prática, trata-se — na leitura que proponho — de uma espécie de “impeachment preventivo” de um ministro que sequer chegou a tomar posse.
O presidente Lula indicou o advogado Jorge Messias para o STF. O Senado disse não. Após o resultado, Jorge Messias se pronunciou. Destaco alguns trechos de sua fala para reflexão.
Disse ele: “Mas eu quero dizer para vocês algo muito importante. Eu aprendi na minha vida que a minha vida está nas mãos de Deus. Deus tem um plano para a nossa vida, para a vida de cada um de nós.”
Respondo com a letra de um samba cantado por Almir Guineto: “Os habitantes da Terra estão abusando… ao nosso Supremo Divino sobrecarregando. Fazendo mil besteiras, e o mal sem ter motivo. E só se lembram de Deus quando estão no perigo.”
Jorge Messias prosseguiu: “Eu cumpri o meu desígnio, participei de forma íntegra e franca de todo esse processo e me submeti, durante cinco meses, a um escrutínio decorrente do próprio processo constitucional. Fui recebido por 78 senadores… Lutei o bom combate.”
Mas qual combate?
A expressão “lutar o bom combate” remete ao apóstolo Paulo, que, preso em Roma e diante da morte, afirmou: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.” A analogia, aqui, parece desproporcional. Não há equivalência entre o testemunho de fé de Paulo e o percurso de uma sabatina política, de um beija-mão de senadores.
O próprio Messias acrescentou: “Passei por cinco meses um processo de desconstrução da minha imagem. Toda sorte de mentiras ocorreu. Nós sabemos quem promoveu tudo isso.” Em outro momento, declarou: “Eu não encaro isso como um fim. Isso é uma etapa do processo da minha vida. E acredito que cada um, com a sua consciência, terá sua resposta diante de Deus.”
Jorge Messias deixa com Deus o julgamento daqueles que o rejeitaram. Isso dispensa comentários.
Por fim, Jorge Messias afirmou: “Sou servidor público de carreira, concursado, não preciso de cargo público para me sustentar.” E agradeceu ao presidente Lula pela oportunidade. Mas, afinal, nas mãos de quem ele, Jorge, o ungido, estava no momento em que resolveu ser Ministro do STF? Ele foi ungido por Lula ou por Deus? Cada um responda.
Quando a fé é mobilizada como argumento ou escudo, corre-se o risco de confundir esferas que deveriam permanecer distintas.
Cabe ao leitor julgar.
Jesus Cristo, como fez com os vendilhões no templo em Jerusalém durante a Páscoa, certamente, expulsaria dos templos os políticos que, no presente, batem no peito chamando a si mesmos de cristãos.


