O déficit habitacional é um dos maiores desafios das cidades brasileiras. Milhões de famílias sonham com a casa própria, jovens adiam a independência porque não conseguem comprar ou alugar um imóvel, e trabalhadores são obrigados a morar cada vez mais longe do emprego porque não encontram opções acessíveis onde há infraestrutura, serviços e oportunidades. Quase ninguém discorda de que é preciso construir mais moradias. O problema aparece quando essas moradias são planejadas perto de onde vivem as pessoas que mais influenciam o debate público. Basta surgir um novo empreendimento para aparecer uma lista de argumentos: vai aumentar o trânsito, sobrecarregar os serviços públicos, desvalorizar imóveis, mudar o perfil do bairro ou comprometer a qualidade de vida. Muitas dessas preocupações são legítimas. Nenhuma cidade deve crescer sem planejamento. É indispensável discutir mobilidade, saneamento, preservação ambiental e a capacidade da infraestrutura para atender novos moradores.
Mas nem toda resistência nasce dessas preocupações. Em muitos casos, o que realmente incomoda não é o prédio. É quem poderá morar nele. Esse comportamento tem até um nome. No urbanismo, ele é conhecido como NIMBY, sigla para a expressão inglesa Not In My Backyard — “não no meu quintal”. O conceito descreve pessoas que defendem uma determinada causa em tese, mas rejeitam que ela aconteça perto de onde vivem. Quando o assunto é habitação, o NIMBY aparece de forma muito clara. Defende-se a necessidade de mais moradias, mas não se aceita um empreendimento de interesse social no próprio bairro. Reconhece-se que os jovens precisam de imóveis mais acessíveis, mas eles devem ser construídos em outra região da cidade.
Concorda-se que o déficit habitacional é um problema, desde que a solução fique longe da própria janela. Essa postura contribui para cidades cada vez mais segregadas.Enquanto os bairros mais valorizados concentram infraestrutura, comércio, serviços e oportunidades, quem tem menor renda acaba sendo empurrado para regiões cada vez mais distantes. O resultado é conhecido: mais tempo no transporte, maior custo de deslocamento e menos acesso às oportunidades que a própria cidade oferece.
A pergunta é inevitável: se essas moradias não podem ser construídas onde há infraestrutura, emprego e serviços, onde essas pessoas deverão morar? No fundo, a discussão não é apenas sobre prédios. É sobre como queremos que nossas cidades se desenvolvam. Uma cidade saudável reúne pessoas de diferentes realidades, fortalece o comércio local, amplia oportunidades e permite que novas gerações continuem vivendo onde nasceram. Isso não significa defender construções sem critérios. Pelo contrário. É preciso exigir planejamento, infraestrutura, mobilidade, áreas verdes e respeito às características de cada bairro. Mas também é preciso reconhecer que toda cidade está em constante transformação.
Novas famílias se formam, jovens buscam independência, pessoas chegam para trabalhar e outras desejam permanecer perto de suas raízes. Se não houver espaço para elas, a consequência será uma cidade cada vez mais cara e menos acessível para quem sempre viveu nela. Talvez a pergunta mais importante seja esta: se concordamos que todos têm direito à moradia, onde ela deve ser construída? Essa resposta exige mais do que dizer “sim” ou “não” a um empreendimento. Exige planejamento, responsabilidade e disposição para pensar a cidade como um espaço que pertence a todos. O verdadeiro desafio não é escolher entre preservar a cidade ou permitir que ela cresça. É encontrar um equilíbrio para que ela continue sendo um lugar onde diferentes pessoas possam viver, trabalhar e construir suas histórias.


