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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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“Bora vencer!”: Entre o discurso motivacional e o vazio filosófico

A expressão “Bora vencer!” tornou-se, nos últimos anos, um lema repetido à exaustão em ambientes de trabalho, palestras motivacionais e redes sociais. Seu apelo reside na simplicidade: um convite direto à superação. No entanto, quando olhada sob a lente da filosofia e do humanismo, essa frase revela um problema recorrente da cultura contemporânea: a superficialidade dos discursos de autoajuda travestidos de sabedoria.

O primeiro ponto de reflexão vem de Sócrates, que defendia a máxima “conhece-te a ti mesmo”. Para o filósofo grego, o verdadeiro impulso de vida não nasce da repetição de palavras de ordem, mas do exame profundo da própria existência. O “Bora vencer!” descolado de uma autocrítica corre o risco de produzir apenas entusiasmo vazio, sem provocar uma transformação genuína no indivíduo.

Outro contraponto é oferecido por Nietzsche, ao criticar os ideais superficiais de superação que não reconhecem o peso da realidade e do sofrimento. Para ele, a verdadeira grandeza humana não reside em vencer sempre, mas em afirmar a vida em sua totalidade, com suas dores e contradições. O discurso “coach”, ao reduzir o existir a uma linha de chegada triunfal, ignora a complexidade do trágico, transformando a vitória em fetiche e a derrota em tabu.

Do ponto de vista humanista, a expressão “Bora vencer!” também merece questionamento. Paulo Freire, em sua pedagogia da libertação, ensinava que a transformação pessoal só faz sentido se for coletiva. O lema motivacional, ao priorizar a vitória individual, reforça a lógica da competição e do mérito isolado, obscurecendo a importância do diálogo, da solidariedade e da construção social do conhecimento. A vitória, nesse discurso, não é a conquista do humano em sua dignidade, mas o sucesso do indivíduo em detrimento do outro.

A retórica “coach” cria uma ilusão: a de que a realidade é moldada apenas pela força da vontade. Esse reducionismo nega as dimensões sociais, políticas e históricas que atravessam cada indivíduo. Ao repetir “Bora vencer!”, sem reconhecer desigualdades estruturais, crises existenciais ou limitações materiais, corremos o risco de responsabilizar a vítima por sua própria condição, convertendo o fracasso em sinal de fraqueza moral.

Em última instância, a filosofia e o humanismo nos convidam a ressignificar esse lema. Vencer, sim — mas não como produto do autoengano motivacional. Vencer, antes, como exercício de autoconhecimento, solidariedade e enfrentamento honesto da realidade. O grito vazio de “Bora vencer!” precisa dar lugar à pergunta socrática, ao olhar crítico freireano e à coragem nietzschiana de afirmar a vida em sua inteireza.

Mais do que repetir slogans, é necessário refletir: o que significa, afinal, vencer?

Anderson Duiarte

Anderson Duarte

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