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O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS
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“Primeiro, eles ignoram você…”

É tempo de eleição e, mais uma vez, vejo candidatos ao governo do Rio de Janeiro percorrendo o mundo e cercando-se de especialistas para propor soluções.
Ninguém ouve quem convive diariamente com os problemas; nenhum candidato está disposto a gastar tempo para ouvir as vítimas. Falam com firmeza, apresentam discursos elaborados, mas a sociedade já conhece o desfecho dessa novela.
Em 1998, Denise Frossard recebeu da engenheira Clara Steinberg o convite para assumir a presidência do Banco da Mulher, uma organização de microcrédito. Denise me levou para viver essa experiência ao lado dele e, de fato, foi uma oportunidade transformou minha compreensão sobre política e desenvolvimento social.
No Banco da Mulher, com Denise Frossard, Clara Steinberg e Olga Simbalista, conheci casos extraordinários, em diversas cidades brasileiras, de superação da pobreza pelo espírito empreendedor de mulheres de baixa renda.
No mesmo período estudei as experiências de dois indianos notáveis: Sanjit “Bunker” Roy, criador da Universidade dos Pés-Descalços, fundada em 1972, e Muhammad Yunus, fundador do Banco dos Pobres, surgido em 1976.
Li os trabalhos dos dois e tive a oportunidade de ouvir Muhammad Yunus em uma de suas visitas ao Rio de Janeiro, em 2012, e, naquele mesmo ano, assistir à palestra TED de Bunker Roy, intitulada Aprender com um Movimento Descalço.
Roy apresentou a criação do Barefoot College, uma escola que rejeita os critérios convencionais de qualificação acadêmica. Segundo ele, uma pessoa com doutorado ou mestrado pode estar menos preparada para compreender a realidade do que uma parteira tradicional, um curandeiro local ou um agricultor experiente.
Para o Barefoot College, a experiência acumulada ao longo da vida constitui um patrimônio intelectual tão valioso quanto qualquer diploma universitário.
O mesmo raciocínio orientou Muhammad Yunus, que ao observar comunidades extremamente pobres em Bangladesh, concluiu que a miséria não era resultado de incapacidade individual, mas da ausência de acesso ao crédito e às oportunidades.
Os bancos tradicionais consideravam os pobres arriscados demais para receber empréstimos. Yunus percebeu, entretanto, que essas pessoas possuíam habilidades, iniciativa e disposição para trabalhar, mas enfrentavam um sistema financeiro que as excluía.
O Grameen Bank demonstrou que os pobres honram seus compromissos com índices de adimplência superiores aos observados em muitos segmentos da economia formal.
Yunus também descobriu que os recursos emprestados às mulheres produzem impactos mais amplos sobre a família e a comunidade. Elas tendem a investir prioritariamente na alimentação, na educação dos filhos, na melhoria das condições de vida até do marido e de toda a comunidade ao seu redor.
Verifiquei essa realidade nos empréstimos concedidos pelo Banco da Mulher.
Bunker Roy observou ainda que os homens, diante das dificuldades econômicas, frequentemente migram em busca de oportunidades, levando consigo o conhecimento adquirido. As mulheres, especialmente as mais velhas, permanecem em suas comunidades e compartilham aquilo que aprendem.
Da experiência do Barefoot College surgiram as chamadas “Vovós Solares”. Mulheres idosas, em sua maioria analfabetas e oriundas de aldeias isoladas da África, da Ásia e da América Latina, viajam até a Índia para aprender a construir, instalar e manter sistemas de energia solar.
Utilizando códigos de cores, diagramas visuais e aprendizagem prática, dominam conhecimentos considerados altamente técnicos.
Ao retornarem para suas comunidades, tornam-se engenheiras solares, multiplicadoras de conhecimento e lideranças locais.
O simbolismo é poderoso: mulheres frequentemente invisibilizadas pela sociedade transformam-se em agentes centrais de desenvolvimento.
Bunker Roy e Muhammad Yunus rejeitam a ideia de que o valor humano possa ser medido exclusivamente por títulos, renda ou posição social. O verdadeiro reconhecimento nasce do serviço prestado às pessoas. A legitimidade surge da prática, não da burocracia.
Eles também demonstram que muitas das soluções para os problemas enfrentados pelos pobres já existem dentro das próprias comunidades. Falta apenas disposição para ouvi-las.
O Colégio dos Pés-Descalços e o Banco dos Pobres comprovam que a pobreza não decorre da ausência de talento, inteligência ou capacidade de trabalho. Ela resulta, frequentemente, da ausência de oportunidades, confiança e reconhecimento.
Ao apostar nos pobres — e especialmente nas mulheres — Bunker Roy e Muhammad Yunus revelaram uma verdade frequentemente ignorada pelas instituições tradicionais: as comunidades possuem conhecimentos, competências e recursos capazes de transformar sua própria realidade.
Talvez seja exatamente essa a lição que os governantes deveriam aprender. Antes de buscar respostas em consultorias internacionais, relatórios sofisticados ou fórmulas importadas, deveriam ouvir aqueles que vivem todos os dias os problemas que eles, arrogantemente, propõem resolver.
Pois, quem enfrenta a realidade conhece, melhor do que qualquer especialista, os caminhos para transformá-la.
Ao final de sua palestra no TED, Bunker Roy recordou uma frase de Mahatma Gandhi que sintetiza essa visão de mundo e que permanece atual: “Primeiro eles te ignoram, depois riem de você, depois lutam contra você. Então você vence.”

Jackson Vasconcelos

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